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Uma saga da Internet em Cuba

Carlos A. Afonso -- 26-07-2022 (69 anos do ataque ao Quartel Moncada)

Tal como em quase todos os países, a Internet em Cuba deu seus primeiros passos por iniciativa da comunidade acadêmica. Esses passos têm certas similaridades com o Brasil, em que um organismo da ONU (o PNUD) colaborou fortemente para estabelecer conexões com a ilha (o PNUD foi um forte apoiador do início da RNP brasileira) e entidades civis de fora de Cuba também ajudaram a abrir caminho em parceria com entidades técnicas locais e uma rede de clubes de computação, os Joven Clubs.

No começo da década de 90, tal como no Brasil, um pequeno grupo de entidades de pesquisa começou a construir uma rede nacional utilizando a rede estatal de pacotes, via o protocolo X.25. No Brasil o Ibase, através de seu serviço AlterNex (iniciado formalmente em 18 de julho de 1989) também oferecia às entidades civis um serviço de troca de mensagens através da rede X.25 RENPAC, da Embratel, combinada com um serviço de conexão via telefone.

Em maio de 1990, um pequeno grupo de organizações civis de vários países (inclusive o Ibase) formalizou em San Francisco a Associação para o Progresso das Comunicações (APC), com o objetivo de contribuir para o acesso universal às novas tecnologias de informação e comunicação (as TICs).

Desde então tem sido parte da missão da APC buscar meios de atravessar as barreiras geográficas e políticas de comunicação entre os povos - particularmente na era da Internet. Cuba foi um primeiro exemplo de sucesso do esforço internacional da APC em oferecer alternativas para o acesso às TICs superando o bloqueio imposto pelos EUA desde a derrubada da ditadura de Batista.

Ainda em 1990, técnicos do Institute for Global Communications (IGC, EUA), do NIRV Centre/Web (Canadá) e do GreenNet (Inglaterra), todos membros fundadores da APC, procuravam equipamentos que poderiam ser levados para Cuba e que permitiriam o estabelecimento de comunicações com a nascente rede da APC (e também com a Internet) através de chamadas telefônicas internacionais.

Devido à pesada legislação do bloqueio, este trabalho teve que ser feito em sigilo, e as chamadas telefônicas não poderiam ser feitas diretamente aos EUA. Foi assim que no dia 1 de maio de 1991 o projeto AlterNex do Ibase inaugurou um serviço experimental de acesso direto a Cuba via discagem direta internacional (DDI), utilizando modems estado-da-arte da época (os Telebit Trailblazers). O serviço permitia o envio e recebimento de correio eletrônico e listas de discussão utilizando o protocolo UUCP (UNIX-to-UNIX Copy Program), com uma conexão diária entre o Rio e Havana.

Pela primeira vez, uma instituição cubana - o Instituto de Documentação e Informação em Ciência e Tecnologia, IDICT, através do seu Centro para o Intercâmbio Automático de Informação (CENIAI), podia trocar mensagens com colegas em várias partes do mundo, via APC e via Internet. O CENIAI na verdade já experimentava com redes X.25 desde 1985, mas de modo precário e com tráfego internacional limitado à Europa Oriental através da então União Soviética.

O experimento mostrou a viabilidade do uso de chamadas telefônicas internacionais para a troca regular de correio eletrônico (tecnologia que o próprio AlterNex utilizava desde seu início para o tráfego de informações com as redes nos EUA). Através da conexão do IDICT/CENIAI, várias outras entidades cubanas passaram a trocar mensagens com o resto do mundo.

A velocidade de transmissão de textos chegava a surpreendentes 600 caracteres por segundo entre o Rio e San Francisco, e cerca de 400 caracteres por segundo entre Rio e Havana - um desempenho excepcional especialmente se lembrarmos que até pelo menos 1995 muitos dos estados brasileiros estavam conectados à Internet a 960 caracteres por segundo. No entanto, o custo elevado das chamadas internacionais tanto do Brasil como de Havana impediram que essa conexão continuasse.

A APC buscou então outras alternativas, via Londres e Toronto, e a partir de 1992 estabeleceu-se um serviço regular UUCP entre o Web/NIRV Centre de Toronto e o IDICT em Havana, com a discagem sendo iniciada no Canadá - o que reduziu em 80% o custo das sessões UUCP. Através dessa ponte, estabelecia-se também o tráfego regular de mensagens entre Cuba e a Internet. Em março de 1992 o IGC da Califórnia anunciou oficialmente o serviço regular de troca de mensagens com a Red David, ou TinoRed, dos Joven Clubs de Computación y Electrónica (JCCE) -- hoje são mais de 600 em todas as municipalidades de Cuba.

A conexão UUCP Toronto-Havana, operada pelo NIRV Centre e subsidiada por este, permaneceu em funcionamento regular até que Cuba finalmente logrou estabelecer conexão direta estável com a Internet a partir de 1996. O último serviço direto da APC com Cuba deixou de operar no início de 1997, e o serviço DNS para Cuba feito pelo NIRV foi repassado no final de fevereiro de 1997 ao CubaNIC, operado pelo CENIAI.

A primeira conexão permanente de Cuba à Internet foi via satélite – um enlace de 64 kbit/s fornecido pela Sprint dos EUA. Hoje Cuba está conectada por fibra óptica, via o cabo ALBA-1 com a Venezuela (lançado em 2011, início de funcionamento com tráfego Internet em janeiro de 2013). O cabo conecta La Guaira, na Venezuela, a Siboney, em Cuba – e Santiago de Cuba a Ocho Ríos, na Jamaica. Um outro cabo de fibra óptica foi ativado em 2016 pelo governo dos EUA exclusivamente para conectar o enclave de Guantánamo à Flórida.

A APC tem o mérito de ter contribuido para permitir que Cuba estivesse em dia com a tecnologia de redes, mesmo com o bloqueio. E uma entidade brasileira - o Ibase - participou como pioneira nesse processo. O Nupef é membro da APC.

 

Para mais informações sobre as entidades mencionadas:

Associação para o Progresso das Comunicações (APC): https://apc.org

Centro de Informações de Rede de Cuba (CubaNIC): http://www.nic.cu

CITMATEL (absorveu o CENIAI): http://www.citmatel.inf.cu

Institute for Global Communications (IGC): https://igc.org

Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase): https://ibase.br

Joven Clubs de Computación y Electrónica (JCCE): https://www.jovenclub.cu

Web Networks: https://web.net


 

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