Projeto Semeando Redes Resilientes inicia atividades com implementação de rede comunitária de Internet na comunidade de Bela Vista (AL)

Participantes do primeiro campo do Projeto Semeando Redes Resilientes
24 julho, 2026

Entre os dias 16 e 19 de julho, o projeto Semeando Redes Resilientes: infraestrutura e formação para proteção territorial realizou sua primeira atividade presencial em Bela Vista, Igreja Nova (AL), onde foi implementada a primeira rede comunitária de Internet do projeto. Construída com a participação de mulheres e jovens da comunidade, a iniciativa marca o início de um ciclo de formação que compartilha a metodologia desenvolvida pelo Instituto Nupef ao longo de mais de uma década de atuação com redes comunitárias.

Realizado pelo Nupef com apoio da Internet Society Foundation, o projeto busca fortalecer organizações e lideranças para que possam implementar, manter e proteger infraestruturas comunitárias de comunicação em seus territórios. Mais do que instalar equipamentos, a formação combina conhecimentos técnicos, uso seguro da Internet, mobilização comunitária e comunicação para proteção territorial. A iniciativa é desenvolvida em parceria com a Associação Pipa, o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social e o Núcleo de Tecnologia do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST). Em Bela Vista, a atividade contou ainda com o apoio do Movimento da Mulher Trabalhadora Rural e Pescadora de Alagoas (MMTRP-AL).

Foto por Kevin Nascimento

Para Zeilane Fernandes, assessora de projetos da área de Tecnologia do Nupef e uma das facilitadoras do módulo de Tecnologia, a implementação da rede foi marcada pela intensa participação das mulheres e pela construção coletiva do conhecimento. Segundo ela, a metodologia foi sendo adaptada para dialogar com os saberes e as demandas das participantes, o que também ampliou seu alcance. A presença de mulheres do Movimento da Mulher Trabalhadora Rural da Paraíba e de Sergipe permitiu que os aprendizados ultrapassassem o território de Bela Vista, favorecendo as possibilidades de multiplicação da experiência em outros estados. A condução da parte teórica e prática da atividade foi realizada por Zeilane e por Renato Racin, que também integra a equipe de tecnologia do Nupef.

“Adaptamos a metodologia para dialogar com as dúvidas, provocações e saberes trazidos pelas participantes. Ver todas envolvidas em cada etapa, inclusive nas mais complexas, como a configuração dos roteadores e a instalação dos equipamentos, foi extremamente gratificante. A tecnologia não chega ao território para que o território se adapte a ela, mas para responder às demandas de coletivos, redes e espaços que já existem. A participação de mulheres de Alagoas, Paraíba e Sergipe também amplia a circulação dessa metodologia e fortalece sua expansão para outros territórios”, destacou Zeilane.

Foto por Kevin Nascimento

A dimensão comunitária da gestão das redes também esteve no centro das discussões. Segundo Carol Magalhães, assessora de projetos do Nupef e facilitadora do módulo de Mobilização Comunitária, a sustentabilidade de uma rede comunitária depende da construção coletiva de regras, responsabilidades e processos de decisão.

“A gestão precisa ser transparente, dialogada e baseada em acordos construídos pela própria comunidade. É importante avaliar coletivamente os diferentes caminhos antes de tomar decisões que impactam o funcionamento da rede. Além disso, é essencial que a rede tenha responsabilidades compartilhadas e espaços permanentes de diálogo sobre sua sustentabilidade e continuidade. Quando a comunidade reconhece sua responsabilidade no funcionamento da rede, ela se fortalece diante dos desafios de manter uma rede comunitária”, reforçou Carol.

Para que isso aconteça, é preciso compreender a comunicação como dimensão estruturante para a sustentabilidade das iniciativas. Para Bruna Hercog, coordenadora de comunicação do Nupef e facilitadora do módulo de Comunicação para Proteção Territorial, pensar a comunicação desde o início fortalece o próprio processo organizativo. “A comunicação precisa fazer parte do planejamento estratégico das redes comunitárias. Mais do que uma ferramenta, ela é um método de organização coletiva, capaz de fortalecer vínculos e mobilizar pessoas e desejos. Quando a comunicação vira ferramenta de aprendizagem, as hierarquias são substituídas pela decisão coletiva, pelo acesso à informação e pela autoridade compartilhada. Isso muda tudo!”, destacou Bruna.

Essa mesma perspectiva foi reforçada por Verônica Santana, liderança do Movimento da Mulher Trabalhadora Rural de Sergipe (MMTR-SE), que destacou a comunicação como um direito estruturante. “A comunicação é um direito que garante todos os outros direitos. O acesso à Internet não responde apenas a uma necessidade técnica. Estamos vendo que aqui em Bela Vista, por exemplo, muitas famílias já possuem Internet em suas casas. O que a rede comunitária fortalece não é a conectividade individual, é a organização política e comunitária do território.”

Foto por Manuella Ferreira

Representando a comunidade de Bela Vista, Rafaela Leão, do MMTPR-AL, contou quais são as perspectivas de impacto da rede comunitária: “A rede vem trazer muitas melhorias para a nossa comunidade. Imagino um futuro em que nossas mulheres e jovens tenham mais oportunidades. Queremos que a juventude possa acessar na Internet conteúdos educativos que contribuam para seu desenvolvimento e que as mulheres utilizem a Internet para fortalecer a geração de renda, ampliando a divulgação e a venda dos produtos da agricultura e da pesca. Vejo um futuro muito bonito para Bela Vista, com essa rede comunitária chegando a toda a comunidade para que todas e todos possam usufruir dessa tecnologia e dos benefícios que ela pode trazer.”

Parceiros do projeto, as equipes que estiveram em campo representando a Associação Pipa o MTST e o Intervozes compartilharam o mesmo sentimento: em rede é muito mais potente construir infraestruturas resilientes e incidir politicamente para que a conectividade e a tecnologia fortaleçam as práticas, os saberes e as metodologias que já existem nos territórios. “Obrigada por cada troca que tivemos. Foi muito rica a aprendizagem que tivemos sobre rede comunitária. Com certeza levaremos para aplicar nos projetos do Pipa e levo para a minha vida!”, partilhou Kevin Nascimento, da Associação Pipa.

Pelo Intervozes, Júlia Lanz, celebrou: “A implementação desta rede é apenas o primeiro passo do projeto. Nossa expectativa é que essa experiência possa ser replicada em outros territórios pelas próprias pessoas das comunidades. É isso que nos dá esperança: que cada território fortalecido inspire outros e vamos transformando o mundo em um lugar melhor”.

Saiba Mais – Após o encontro presencial, a formação segue por mais três meses em formato online. As organizações participantes trocarão experiências e desenvolverão conhecimentos sobre implementação técnica de redes comunitárias, gestão das infraestruturas, articulação comunitária, comunicação para proteção territorial e uso estratégico das tecnologias. A expectativa é que até o final do projeto, Pipa e MTST também tenham implementado redes comunitárias nas comunidades onde atuam.

Anexo

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