Projeto Semeando Redes Resilientes inicia atividades com implementação de rede comunitária de Internet na comunidade de Bela Vista (AL)
Entre os dias 16 e 19 de julho, o projeto Semeando Redes Resilientes: infraestrutura e formação para proteção territorial realizou sua primeira atividade presencial em Bela Vista, Igreja Nova (AL), onde foi implementada a primeira rede comunitária de Internet do projeto. Construída com a participação de mulheres e jovens da comunidade, a iniciativa marca o início de um ciclo de formação que compartilha a metodologia desenvolvida pelo Instituto Nupef ao longo de mais de uma década de atuação com redes comunitárias.
Realizado pelo Nupef com apoio da Internet Society Foundation, o projeto busca fortalecer organizações e lideranças para que possam implementar, manter e proteger infraestruturas comunitárias de comunicação em seus territórios. Mais do que instalar equipamentos, a formação combina conhecimentos técnicos, uso seguro da Internet, mobilização comunitária e comunicação para proteção territorial. A iniciativa é desenvolvida em parceria com a Associação Pipa, o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social e o Núcleo de Tecnologia do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST). Em Bela Vista, a atividade contou ainda com o apoio do Movimento da Mulher Trabalhadora Rural e Pescadora de Alagoas (MMTRP-AL).

Para Zeilane Fernandes, assessora de projetos da área de Tecnologia do Nupef e uma das facilitadoras do módulo de Tecnologia, a implementação da rede foi marcada pela intensa participação das mulheres e pela construção coletiva do conhecimento. Segundo ela, a metodologia foi sendo adaptada para dialogar com os saberes e as demandas das participantes, o que também ampliou seu alcance. A presença de mulheres do Movimento da Mulher Trabalhadora Rural da Paraíba e de Sergipe permitiu que os aprendizados ultrapassassem o território de Bela Vista, favorecendo as possibilidades de multiplicação da experiência em outros estados. A condução da parte teórica e prática da atividade foi realizada por Zeilane e por Renato Racin, que também integra a equipe de tecnologia do Nupef.
“Adaptamos a metodologia para dialogar com as dúvidas, provocações e saberes trazidos pelas participantes. Ver todas envolvidas em cada etapa, inclusive nas mais complexas, como a configuração dos roteadores e a instalação dos equipamentos, foi extremamente gratificante. A tecnologia não chega ao território para que o território se adapte a ela, mas para responder às demandas de coletivos, redes e espaços que já existem. A participação de mulheres de Alagoas, Paraíba e Sergipe também amplia a circulação dessa metodologia e fortalece sua expansão para outros territórios”, destacou Zeilane.

A dimensão comunitária da gestão das redes também esteve no centro das discussões. Segundo Carol Magalhães, assessora de projetos do Nupef e facilitadora do módulo de Mobilização Comunitária, a sustentabilidade de uma rede comunitária depende da construção coletiva de regras, responsabilidades e processos de decisão.
“A gestão precisa ser transparente, dialogada e baseada em acordos construídos pela própria comunidade. É importante avaliar coletivamente os diferentes caminhos antes de tomar decisões que impactam o funcionamento da rede. Além disso, é essencial que a rede tenha responsabilidades compartilhadas e espaços permanentes de diálogo sobre sua sustentabilidade e continuidade. Quando a comunidade reconhece sua responsabilidade no funcionamento da rede, ela se fortalece diante dos desafios de manter uma rede comunitária”, reforçou Carol.
Para que isso aconteça, é preciso compreender a comunicação como dimensão estruturante para a sustentabilidade das iniciativas. Para Bruna Hercog, coordenadora de comunicação do Nupef e facilitadora do módulo de Comunicação para Proteção Territorial, pensar a comunicação desde o início fortalece o próprio processo organizativo. “A comunicação precisa fazer parte do planejamento estratégico das redes comunitárias. Mais do que uma ferramenta, ela é um método de organização coletiva, capaz de fortalecer vínculos e mobilizar pessoas e desejos. Quando a comunicação vira ferramenta de aprendizagem, as hierarquias são substituídas pela decisão coletiva, pelo acesso à informação e pela autoridade compartilhada. Isso muda tudo!”, destacou Bruna.
Essa mesma perspectiva foi reforçada por Verônica Santana, liderança do Movimento da Mulher Trabalhadora Rural de Sergipe (MMTR-SE), que destacou a comunicação como um direito estruturante. “A comunicação é um direito que garante todos os outros direitos. O acesso à Internet não responde apenas a uma necessidade técnica. Estamos vendo que aqui em Bela Vista, por exemplo, muitas famílias já possuem Internet em suas casas. O que a rede comunitária fortalece não é a conectividade individual, é a organização política e comunitária do território.”

Representando a comunidade de Bela Vista, Rafaela Leão, do MMTPR-AL, contou quais são as perspectivas de impacto da rede comunitária: “A rede vem trazer muitas melhorias para a nossa comunidade. Imagino um futuro em que nossas mulheres e jovens tenham mais oportunidades. Queremos que a juventude possa acessar na Internet conteúdos educativos que contribuam para seu desenvolvimento e que as mulheres utilizem a Internet para fortalecer a geração de renda, ampliando a divulgação e a venda dos produtos da agricultura e da pesca. Vejo um futuro muito bonito para Bela Vista, com essa rede comunitária chegando a toda a comunidade para que todas e todos possam usufruir dessa tecnologia e dos benefícios que ela pode trazer.”
Parceiros do projeto, as equipes que estiveram em campo representando a Associação Pipa o MTST e o Intervozes compartilharam o mesmo sentimento: em rede é muito mais potente construir infraestruturas resilientes e incidir politicamente para que a conectividade e a tecnologia fortaleçam as práticas, os saberes e as metodologias que já existem nos territórios. “Obrigada por cada troca que tivemos. Foi muito rica a aprendizagem que tivemos sobre rede comunitária. Com certeza levaremos para aplicar nos projetos do Pipa e levo para a minha vida!”, partilhou Kevin Nascimento, da Associação Pipa.
Pelo Intervozes, Júlia Lanz, celebrou: “A implementação desta rede é apenas o primeiro passo do projeto. Nossa expectativa é que essa experiência possa ser replicada em outros territórios pelas próprias pessoas das comunidades. É isso que nos dá esperança: que cada território fortalecido inspire outros e vamos transformando o mundo em um lugar melhor”.
Saiba Mais – Após o encontro presencial, a formação segue por mais três meses em formato online. As organizações participantes trocarão experiências e desenvolverão conhecimentos sobre implementação técnica de redes comunitárias, gestão das infraestruturas, articulação comunitária, comunicação para proteção territorial e uso estratégico das tecnologias. A expectativa é que até o final do projeto, Pipa e MTST também tenham implementado redes comunitárias nas comunidades onde atuam.
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