IPS

Subscrever feed IPS
Jornalismo e comunicação para transformar o mundo
Atualizado: 10 minutos 33 segundos atrás

Criando oportunidades para o empreendedorismo agrícola entre os jovens da África

qua, 18/03/2020 - 11:11

Com a crescente demanda doméstica e regional por alimentos diversificados e processados, há uma grande oportunidade de desenvolvimento para os negócios agroalimentares na África, bem como a necessidade de se criar oportunidades para fomentar o empreendedorismo agrícola entre as crescentes fileiras de jovens desempregados do continente.

IBADAN, Nigéria, 18 de março de 2020 (IPS) – “Não é fácil estar na agricultura, mas é preciso ter perseverança e paixão por ela”, contou à IPS Ngozi Okeke (30), diretora de operações da Frotchery Farms, durante uma visita à fábrica da empresa em Ibadan, Nigéria. Para ela, paixão e paciência são fundamentais para o sucesso nos negócios, mas também reconhece a necessidade de se criar oportunidades para fomentar o agronegócio entre as crescentes fileiras de jovens africanos desempregados.

A empresa processa cerca de 1.500 toneladas de peixe-gato vivo, peixe congelado e defumado, salgadinhos, filés e pó de peixe em sua fábrica em Ogidi Estate, Akobo, Ibadan. Os produtos são então embalados com a marca da empresa e vendidos nos mercados de todo o país. “Quando começamos, a nossa primeira produção de peixe defumado ficou toda queimada, perdemos nosso dinheiro e perdemos tudo. Mas sabíamos o que queríamos para nós mesmos e não desanimamos. Foi apenas um retrocesso e continuamos”, destacou Okeke.

Yusuf Babatunde (30), diretor de marketing, detalhou que a empresa começou com economias pessoais que os parceiros investiram na compra de peixe dos fazendeiros, antes de iniciar sua própria produção de peixe. “Acreditamos em alta qualidade quando se trata de produção de peixes e nossas diferentes habilidades ajudam a inovar e expandir nossa marca. E isso está valendo a pena”, enfatizou.

    • A África tem mais de 200 milhões de jovens entre 15 e 34 anos, de acordo com o Banco de Desenvolvimento da África (BAD). A agricultura é um fator econômico essencial em muitos países do continente, o que a União Africana há muito identificou como uma força para o crescimento social e econômico, em seu Programa Abrangente de Desenvolvimento da Agricultura na África (CAADP), de 2003.

    Mas os jovens têm percepções negativas sobre a agricultura, entre elas a de ser intensiva em trabalho e oferecer pouco ganho. “Muitos jovens não são pacientes, mas os que entram na agricultura precisam ser pacientes e perseverar em servir para ter sucesso”, opinou Okeke.

    A Frotchery Farms foi fundada em 2015 por Okeke, Babatunde e seu outro parceiro, Oni Hammed (31), depois de formados no Programa de Agronegócios de Jovens do Instituto Internacional de Agricultura Tropical (IITA). O programa forneceu recursos técnicos e materiais para lançar a empresa.

    • O diretor-geral do IITA, Nteranya Sanginga, estabeleceu o Programa de Jovens Empreendedores em 2012, com o objetivo de mudar a percepção dos jovens africanos sobre a agricultura, para vê-la como um negócio interessante e lucrativo. O Programa inscreve 60 jovens de 24 centros em toda a África para treinamento prático em agricultura e empreendedorismo.

Fique forte

O agronegócio é lucrativo, mas exige talento empreendedor e uma atitude de nunca morrer, algo que escapa aos jovens, apontou Hammed, diretor administrativo que também é responsável pela produção da Frotchery Farms. “Na maioria das vezes, os jovens sentem que são os idosos que podem trabalhar na agricultura e estamos tentando mudar essa mentalidade. É possível, pois os jovens são inovadores e podem criar algo e mudar a maneira como a agricultura é vista”, acrescentou à IPS.

Paixão sim, mas habilidades melhores

As habilidades em empreendedorismo agrícola são críticas para o emprego dos jovens, especialmente nas áreas rurais. Pesquisas da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que os jovens estão se afastando da agricultura e mudando para as cidades para trabalhar como mão de obra pouco qualificada, enquanto aspiram empregos altamente qualificados, apesar do baixo nível de escolaridade.

“A incompatibilidade de habilidades é um grande problema e os jovens precisam ser treinados e treinados novamente em empregos ao longo da cadeia de valor agroalimentar, além da agricultura”, explicou à IPS Ji-Yeun Rim, gerente de projetos do Centro de Desenvolvimento da OCDE em Paris, França. Ele está coordenando um projeto de apoio a governos em nove países africanos e asiáticos para melhorar as políticas voltadas para a juventude, especialmente na cadeia de valor agroalimentar.

Com a crescente demanda doméstica e regional por alimentos diversificados e processados, há uma grande oportunidade de desenvolvimento dos negócios agroalimentares na África, afirmou Rim. “Muitos programas de emprego para jovens concentram-se no empreendedorismo, mas nossa pesquisa constata que este não é para todos e a maioria dos jovens não tem sucesso como empreendedores e geralmente permanece apenas em atividades de subsistência”, observou.

“O empreendedorismo é uma falsa panaceia para o problema do emprego dos jovens. Os jovens precisam ser treinados em vários tipos de trabalhos ao longo da cadeia de valor agroalimentar, da agricultura ao processamento, serviços e marketing, para que também possam encontrar cargos assalariados”.

Evidências de pesquisas para o desenvolvimento de políticas

Enquanto isso, o IITA aponta que mais jovens estão aproveitando a pesquisa agrícola e as novas tecnologias projetadas para os sistemas agrícolas na África, a fim de fazer uma carreira lucrativa na agricultura. O Instituto observa, porém, que os sistemas agrícolas precisam de transformação e fortalecimento para ajudar a alcançar emprego para os jovens, segurança alimentar, fome zero e alívio da pobreza.

Para esse fim, o IITA lançou a Melhoria da Capacidade de Aplicação de Evidências de Pesquisa (Care) na Política de Participação Juvenil no Agronegócio e nas Atividades Econômicas Rurais da África, um projeto de três anos financiado pelo Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida).

A Care busca aumentar a compreensão da redução da pobreza, impacto no emprego e fatores que influenciam o envolvimento dos jovens no agronegócio, na economia rural e não agrícola. Oferece bolsas para jovens acadêmicos africanos que pretendem estudar para um mestrado ou doutorado. Os pesquisadores recebem ajuda para desenvolver capacidade para gerar e disseminar resultados baseados em evidências, e influenciar políticas e práticas no apoio ao crescimento econômico e no cumprimento das metas dos ODS na África. Em 2020, 30 bolsistas receberam doações da Care.

Um dos primeiros beneficiados pelo projeto em 2019, Dolapo Adeyanju, estudante de mestrado da Nigéria, pesquisou o impacto de programas agrícolas no desempenho do empreendedorismo jovem nesse país da África Ocidental. Ela descobriu que muitos jovens aceitam o agronegócio como uma opção de carreira sustentável e lucrativa. “Mesmo assim, pode-se dizer que ainda há muito a ser implementado em termos de criação de um ambiente propício para jovens proprietários de agronegócios, sob a forma de políticas e intervenções que possam ajudar jovens empresários e futuros proprietários”, ressaltou.

The post Criando oportunidades para o empreendedorismo agrícola entre os jovens da África appeared first on IPS em português.

Realismo Climático: A opinião pública sobre as mudanças climáticas em 39 países

qua, 04/03/2020 - 13:07

Pesquisa Market Analysis, divulgação exclusiva Agência Envolverde – 

Esta é a segunda parte da pesquisa elaborada pela consultoria Market Analysis, sob a coordenação de Fabián EchegarayMurilo Urssi sobre a percepção existente em diversas regiões no mundo, inclusive no Brasil, sobre a realidade e impactos das mudanças climáticas.

A pesquisa “Realismo climático no Mundo” foi realizada por meio de entrevistas online com 29.870 pessoas em 39 países nos 5 continentes.

Homens e mulheres maiores de 18 anos, pertencentes a todas as classes socioeconômicas foram entrevistados durante 2019.

Cotas cruzadas de idade, sexo e classe social foram estabelecidas para garantir a representatividade de todos os grupos demográficos na amostra.

A primeira parte dessa pesquisa, realizada junto ao público brasileiro, apontou que 93% dos entrevistados acreditam que as mudanças climáticas são realidade e impactam as vidas das pessoas e das políticas públicas.

Um dado preocupante dessa nova fase da pesquisa é que 46% dos entrevistados acreditam que já é muito tarde para agir no combate às mudanças climáticas.

Outro dado que precisa de uma melhor reflexão é o fato de que os mais pobres estão mais convencidos sobre a urgência de ações contra as mudanças no clima do que as populações mais ricas. Quanto menor a riqueza per capita (associada à educação e segurança material), maior o senso de urgência e conexão dos fenômenos climáticos com suas causas e efeitos. O bem-estar material anestesia a leitura sobre as mudanças climáticas.

A primeira parte pode ser lida AQUI.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O post Realismo Climático: A opinião pública sobre as mudanças climáticas em 39 países apareceu primeiro em Agência Envolverde.

The post Realismo Climático: A opinião pública sobre as mudanças climáticas em 39 países appeared first on IPS em português.

Mulheres em áreas em crise precisam de apoio em saúde sexual e reprodutiva

ter, 11/02/2020 - 19:37

Por Samira Sadeque , IPS –

É necessário focalizar a situação inesquecível de mulheres e meninas que vivem em áreas de conflito e, em particular, apoiá-las com serviços de saúde sexual e reprodutiva, exigidos em um plano de ação humanitário 2020, a agência da ONU para a população.

Atualmente, existem mais de 168 milhões de pessoas que precisam de ajuda financeira no mundo, disse o Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) na quinta-feira, dando uma imagem da situação. O fundo projeta que, durante este ano, 45 milhões de mulheres e meninas serão afetadas por seus direitos devido a algum tipo de conflito.

Para mulheres e meninas, os direitos à saúde sexual e reprodutiva muitas vezes se tornaram um problema secundário em situações de crise, mas especialistas dizem que é hora de torná-los uma preocupação primária.

O UNFPA exige 683 milhões para tratar do direito à saúde sexual e reprodutiva de mulheres e meninas em 57 países em crise. Crédito: Abdurrahman Warsameh / IPS

Segundo o UNFPA, para isso, é necessário um financiamento de 683 milhões de dólares, conforme destacado no plano divulgado na quinta-feira 6.

“Esses tipos de serviços há muito são esquecidos”, disse à IPS Arthur Erken, diretor da Divisão de Comunicações e Parcerias Estratégicas do UNFPA. “Não deve ser uma ideia que seja última, deve ser parte integrante de (toda a preocupação)”, acrescentou.

“Estamos focando nas mulheres e no que elas estão passando, porque estão na linha de frente”, disse à IPS Ann Erb Leoncavallo, do UNFPA. “Eles estão tentando cuidar de seus filhos, estão grávidas, estão tendo bebês, estão sendo bombardeados, sofrem inundações, água sobe, muitas outras coisas”, disse ele.

Leoncavallo acrescentou que muitas das mulheres em áreas de conflito podem liderar famílias monoparentais ou ter seu próprio trauma. “Eles ficam deprimidos, ficam traumatizados porque enfrentam um aumento na violência de gênero”, disse ele.

Os US $ 683 milhões serão utilizados para esforços em prol dos direitos à saúde sexual e reprodutiva das mulheres em 57 países, dos quais cerca de 300 milhões serão destinados a projetos do UNFPA em países como Síria, Iêmen, Iraque, Sudão e Somália. .

Para ajudar as mulheres a procurar ajuda, desaprender sua vergonha e estigma, o UNFPA está atualmente trabalhando com “espaços seguros para mulheres e meninas”, onde podem fazer uma pausa em seus ambientes hostis e atividades diárias.

Nesses espaços seguros, estabelecidos, por exemplo, nos campos de refugiados, as mulheres podem conhecer outras pessoas, compartilhar experiências, relaxar e ter um ambiente seguro para discutir sua situação e pedir ajuda, explicou Erken.

O objetivo de criar espaços nos quais os homens não podem entrar, explicou, é prestar muita atenção às mulheres, proporcionando-lhes um local onde elas possam se sentir calmas e obter serviços de consultoria sobre os assuntos que lhes dizem respeito.

Algo também importante, explicou o funcionário do UNFPA, é que a mulher não sofre estigma quando vai a esses espaços, como foi percebido nos campos de refugiados na Jordânia que possuem essas instalações.

Além disso, para manter a privacidade, os prestadores de serviços especiais das mulheres as visitam quando seus filhos estão na escola e seus maridos estão ocupados em outro lugar.

Afrah Thabet al Ademi, médica do UNFPA no Iêmen, que trabalha com mulheres que escaparam do conflito naquele país árabe, diz que a educação tem um papel a desempenhar na “desvalorização” desses serviços para a população refugiada.

De fato, o Fundo solicita não menos de US $ 100,5 milhões especificamente para o Iêmen, a maior quantia de todos os países em crise, onde se propõe a fornecer novos serviços de saúde sexual e reprodutiva para as mulheres.

“Muitas mulheres que não têm educação, se sentem agredidas e se sentem estigmatizadas se expressarem suas necessidades sobre o assunto ou no planejamento familiar”, disse Al Ademi à IPS.

O médico lembra como exemplo uma ocasião em que ela conheceu uma mulher que acabara de dar à luz e teve seu filho meio coberto com um véu. “Quando ele expôs o bebê, vi que ele o havia coberto com o papel de um material informativo, porque ele não tinha roupas para ele”, disse ele.

A partir disso, o UNFPA no Iêmen desenvolveu um kit para mães de recém-nascidos, que estará disponível para qualquer mulher que vier a dar à luz.

“Roupas para seus bebês é dar-lhes dignidade”, disse Al Ademi.

O “kit mãe”, o nome que eles deram a ele, tem roupas para o bebê, almofadas para a mãe, cobertores e fraldas, entre outras coisas para o recém-nascido e sua mãe.

O UNFPA também está alocando fundos para a República Democrática do Congo, Síria, Sudão, Bangladesh e Venezuela para ajudar na saúde sexual e reprodutiva das mulheres nesses países em diferentes crises humanitárias.

#Envolverde

O post Mulheres em áreas em crise precisam de apoio em saúde sexual e reprodutiva apareceu primeiro em Agência Envolverde.

The post Mulheres em áreas em crise precisam de apoio em saúde sexual e reprodutiva appeared first on IPS em português.

P&R: África deve inovar seus sistemas alimentares para vencer a fome e a pobreza

ter, 11/02/2020 - 16:14

O cientista e diretor-geral do Instituto Internacional de Agricultura Tropical (IITA), NTERANYA SANGINGA, fala com o correspondente da IPS Busani Bafana sobre como o instituto está alavancando sua pesquisa bem-sucedida para impulsionar um maior investimento em agricultura.

BULAWAYO, Zimbábue, 11 de fevereiro de 2020 (IPS) – A África precisa investir na agricultura, aplicando mais recursos em pesquisa e desenvolvimento inovadores, que possam aumentar a segurança alimentar e nutricional, de acordo com o cientista Nteranya Sanginga, diretor-geral do Instituto Internacional de Agricultura Tropical (IITA), com sede em Ibadan, na Nigéria.

Sanginga apontou que a África não consegue alavancar seus enormes recursos quando se trata de transformar a agricultura para o crescimento econômico. “O investimento em pesquisa na África é baixo, menos de 1%, e quando se trata de agricultura é pior, porque os líderes não entendem a importância da pesquisa”, destacou à IPS. “Hoje, se você acabar com o IITA na África, a pesquisa agrícola morre na África”, enfatizou.

Cidadão da República Democrática do Congo, Sanginga especializou-se em agronomia e microbiologia do solo, e esteve envolvido em pesquisa e desenvolvimento agrícola, particularmente em ecologia microbiana aplicada, nutrição de plantas e gerenciamento integrado de recursos naturais na África, América Latina e Sudeste Asiático.

Sanginga ressaltou que a África deve desenvolver capacidade de pesquisa para inovar seus sistemas alimentares para vencer a fome e a pobreza, e que os jovens são a chave para o futuro alimentar do continente. E destacou que lançou um programa no IITA para ajudar jovens africanos a criar agronegócios lucrativos.

Agricultores capinando um campo de trigo em Accra, Gana. Foto: Busani Bafana/IPS

Falando em uma reunião dos Líderes Africanos para Nutrição, em Addis Abeba, Etiópia, na semana passada, o presidente do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), Akinwumi Adesina, disse que a África deve investir no desenvolvimento de habilidades para os jovens, para que os empresários do continente possam aproveitar as tecnologias emergentes e transformar o sistema alimentar da África, gerando novos empregos.

    • A população da África deve dobrar para 2,5 bilhões de pessoas em 40 anos, pressionando os governos a oferecer mais alimentos e empregos, além de melhores meios de subsistência.
    • A boa notícia é que o crescimento econômico da África está subindo e deve registrar 3,9% em 2020 e 4,1% em 2021, de acordo com o relatório de perspectivas econômicas africanas do BAD para 2020.
    • Segundo o Banco Mundial, a agricultura e o agronegócio africanos podem valer US$ 1 trilhão nos próximos dez anos. Mas o continente deve superar várias barreiras ao desenvolvimento agrícola, devido à má infraestrutura, acesso limitado ao crédito para os agricultores e baixo uso de insumos e mecanização aprimorados.

A Aliança para uma Revolução Verde na África (Agra) aponta que a África precisa investir até US$ 400 bilhões em agricultura nos próximos dez anos para atender às suas necessidades alimentares. Até a presente data, 44 países africanos assinaram o Pacto Global do Programa de Desenvolvimento Agrícola Africano (CAADP), para investir 10% de seus orçamentos na agricultura e aumentar sua produtividade em pelo menos 6%. Isso segue a Declaração de Maputo sobre Agricultura e Segurança Alimentar, assumida pelos chefes de Estado africanos em 2003.

Sob a liderança de Sanginga, o IITA ganhou o Prêmio África de Alimentos 2018, por suas pesquisas agrícolas de ponta e inovações que aumentaram a nutrição e a renda. Desde a sua fundação, há 50 anos, o IITA desenvolveu variedades novas, melhoradas e de alto rendimento de mandioca, feijão-de-corda, milho, banana, soja e inhame. No geral, o valor das culturas desenvolvidas pelo IITA e seus parceiros atualmente é superior a US$ 17 bilhões, ressaltando-se sua contribuição para a agricultura e a economia africanas.

A seguir, um trecho da entrevista.

INTER PRESS SERVICE: Como o IITA está alavancando sua pesquisa bem-sucedida para impulsionar um maior investimento em agricultura?

NTERANYA SANGINGA: Está sendo iniciado um programa para mudar a mentalidade dos jovens sobre a agricultura. Infelizmente, com nossos governos, é por onde se deve ir para mudar completamente de mentalidade. Provavelmente, 90% de nossos líderes consideram a agricultura basicamente como uma atividade social. Para eles é uma dor, uma penúria. Eles proclamam que a agricultura é uma prioridade na resolução de nossos problemas, mas não estão investindo nela. É necessário que essa mentalidade seja completamente alterada.

Akinwumi Adesina, um colega com quem trabalhei no IITA, e eu discutimos que um dia mudaríamos a maneira como a agricultura seguia. Isso aconteceu quando eu me tornei diretor-geral e ele ministro da Agricultura na Nigéria. Conseguimos mudar a maneira como a agricultura era percebida na Nigéria, mas ele nunca conseguiu que o governo investisse mais de 3% no setor. Portanto, a agricultura deve ser considerada um investimento e dois países da África fizeram isso acontecer: a Etiópia – que está investindo cerca de 20% de seu orçamento na agricultura – e Ruanda.

Devemos investir na agricultura da mesma maneira que investimos na mineração. Por exemplo, a Nigéria importa US$ 5 bilhões em alimentos por ano, comprando arroz da Tailândia e trigo dos Estados Unidos, por exemplo. Sabe-se que o significado disso é que, em vez de criar empregos aqui, estão sendo criados empregos para o cultivo de arroz na Tailândia e de trigo nos Estados Unidos. O IITA provou que é possível produzir arroz e trigo aqui. Uma e outra vez é essa mentalidade dos líderes, que basicamente não entendem que todos os outros continentes desenvolveram-se por meio da agricultura. É preciso defender a agricultura.

IPS: O IITA enfatiza fortemente a abordagem da agricultura como negócio. Quais são as políticas necessárias que criarão uma abertura para isso?

NS: Eu penso que não vamos criar um milagre na África. Deve-se seguir o que outras pessoas fizeram. Adesina iniciou subsídios inteligentes na Nigéria e, em vez de dar dinheiro como você faria nos Estados Unidos ou na Europa, ele começou a comprar equipamentos, fertilizantes e outros insumos para os agricultores, o que está funcionando.

Não vejo outra maneira de ajudar a agricultura na África se não se facilitar nem subsidiar. Lembre-se de que, nos Estados Unidos ou na Europa, se os subsídios forem interrompidos, todos esses agricultores deixarão a agricultura, portanto, é preciso garantir que se encontrará alguma maneira de ajudar nossos agricultores a investir na agricultura. São necessárias liderança e políticas. Por que se permitiria que alguém roubasse US$ 10 bilhões de um país e não fizesse um esforço para investir isso em algo útil?

Além disso, a maioria dos bancos da África considera a agricultura arriscada, mas alguns adotaram iniciativas para ajudar os agricultores. No Quênia, o Equity Bank entendeu que a agricultura é um negócio. Na Nigéria, existe um programa para colocar algum dinheiro e arriscar empréstimos para a agricultura. De fato, o Equity Bank no Quênia emprestou a agricultores e tem menos de 1% de inadimplência em sua taxa de reembolso. Então, realmente a agricultura é um bom negócio, mas os bancos ainda relutam.

The post P&R: África deve inovar seus sistemas alimentares para vencer a fome e a pobreza appeared first on IPS em português.

Superando a grande divisão de financiamento de gênero na África

qua, 22/01/2020 - 18:25

NAIROBI, 22 de janeiro de 2020 (IPS) – O que existe entre Soi Cate Chelang e seu sonho de transformar seu pequeno negócio de móveis feitos de paletes em uma grande empresa é o capital. No Quênia, Chelang pode muito bem ser pioneira em fabricar móveis com paletes – plataformas de madeira usadas para empilhar mercadorias para transportá-las.

Embora não tenha formação formal em carpintaria, Chelang contou à IPS que ela vem de uma grande família de carpinteiros, tendo treinado com o avô e o tio. E o que ela não sabe, ela aprende com lições on-line sobre carpintaria. Ela começou o negócio há mais de uma década – antes que alguém o fizesse – e seus produtos são populares entre os consumidores.

“Meus desenhos destacam-se, porque eu combino muitos elementos diferentes. Não se trata apenas de transformar madeira em um assento. Uso tecidos coloridos e as clientes gostam de tecidos que iluminam suas casas. Também faço móveis infantis a partir de paletes e uso tecidos com desenhos populares”, explicou Chelang. Ela vende seu sofá-palete doméstico de três lugares por US$ 100 a US$ 300, dependendo do design e do material usado.

Crédito insuficiente para crescer

Os clientes procuram seus serviços por meio de suas páginas de mídia social, onde ela comercializa seus produtos com o nome Soi Pallet Designs. Mas essa mulher de 35 anos está preocupada com o fato de a oportunidade de lucrar com seus projetos únicos estar passando por ela.

“Não tenho dinheiro para montar uma oficina e um showroom adequados. Não posso assinar contratos para fazer cadeiras de paletes para grandes clubes de entretenimento da cidade porque não tenho capital para financiar pedidos tão grandes”, detalhou Chelang, explicando que esses clubes estão interessados em seus projetos. “Consegui entregar uma encomenda de US$ 5 mil em 2018 porque um dos meus mentores forneceu capital para financiar o pedido”, observou.

Mas isso foi uma vez. Porque, sem garantia, os bancos concederão a ela um empréstimo comercial. Então, por enquanto, ela tem que fazer por encomenda. Mesmo nesse caso, seus clientes devem primeiro pagar de 30% a 50% do custo total, para permitir que ela compre materiais e pague alguns de seus custos de mão de obra.

“Trabalho com três carpinteiros que pago diariamente. Só aceitamos um pedido de cada vez, porque não tenho uma oficina adequada e não posso contratar mais”, acrescentou Chelang. Essas circunstâncias limitam seus negócios à sua casa, na cidade de Kisumu, a cerca de 350 quilômetros da capital do Quênia, Nairobi.

Crédito tradicional não disponível

Mas a incapacidade de Chelang de expandir seus negócios não é uma história nova. De acordo com o Índice Mastercard de Mulheres Empresárias de 2017, a falta de capital é um dos principais desafios para as mulheres que fazem negócios na África hoje, especialmente na África Subsaariana. Apesar de os dados do relatório Global Entrepreneurship Monitor (GEM) de 2017-2018, mostrarem que a África Subsaariana assumiu a liderança como a única região em que as mulheres formam a maioria dos trabalhadores independentes.

    • De acordo com o relatório GEM, globalmente, a África tem atitudes mais positivas em relação ao empreendedorismo, pois 76% dos adultos em idade ativa consideram o empreendedorismo uma boa opção de carreira, enquanto outros 75% acreditam que os empresários são admirados em suas sociedades.
    • Na última década, o número de mulheres que ingressaram no empreendedorismo está em constante crescimento, afirma o relatório GEM. As mulheres são desenvolvedores de alta tecnologia no Quênia ou, como Chelang, estão provocando ondas no setor informal.
    • As empresárias também estão no negócio de fabricação de aço na África do Sul e nos negócios de processamento de cacau na Costa do Marfim e na maior região da África Ocidental.
    • Ainda mais impressionante, o Índice Mastercard de Mulheres Empreendedoras 2017 indica que Uganda e Botsuana têm a maior porcentagem de mulheres empreendedoras do mundo. Outros países desta liga incluem Quênia, Gana, Nigéria e Zâmbia.

As mulheres empreendedoras devem ganhar com o financiamento de ações afirmativas do Banco Africano de Desenvolvimento. Foto: Miriam Gathigah/IPS

Estabelecer estruturas financeiras duradouras

Ciente das restrições financeiras que as mulheres enfrentam nos negócios, o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) está envidando esforços conjuntos para abordar a crescente lacuna de financiamento, de US$ 42 bilhões, entre empresários masculinos e femininos na África. Para suprir essa lacuna, os chefes de Estado africanos lançaram o programa Ação Financeira Afirmativa para Mulheres na África (Afawa) em 2016.

    • Como uma iniciativa pan-africana conjunta entre o BAD e o Fundo Africano de Garantia, o Afawa é um mecanismo de compartilhamento de empréstimos de risco para empresas pertencentes e lideradas por mulheres.
    • Durante a mais recente Cúpula Global de Gênero, realizada em Kigali, em novembro de 2019, a Afawa foi oficialmente lançada em Ruanda. O programa de ação afirmativa recebeu um compromisso de US$ 1 milhão do governo ruandês. Ainda em 2019, os líderes do G7 aprovaram um pacote no total de US $ 251 milhões em apoio à Afawa.
    • Além disso, o Attijariwafa Bank, um banco comercial multinacional marroquino, e o Fundo Africano de Garantia assinaram um Memorando de Entendimento de US$ 50 milhões para empréstimos de risco para mulheres com garantias parciais.

Usando uma abordagem holística, este programa de ação afirmativa abordará os principais fatores que prejudicam as mulheres na África, incluindo o acesso a produtos e serviços financeiros, como empréstimos. Consequentemente, esses serviços financeiros também serão acessíveis e de baixo custo.

O financiamento da Afawa liberará US$ 3 bilhões em crédito para mulheres em empresas e empreendimentos na África. Para esse objetivo, o programa trabalhará com bancos comerciais e instituições de microfinanças existentes para projetar mudanças estruturais duradouras, em benefício das mulheres de todo o continente.

Além disso, haverá um sistema de classificação para avaliar as instituições financeiras com base na extensão em que emprestam às mulheres e no consequente impacto socioeconômico. As principais instituições receberão termos preferenciais do banco pan-africano.

Empresas sustentáveis de propriedade de mulheres contribuirão para a economia

Especialistas financeiros, como Irene Omari, dizem que o Afawa é importante para a inclusão financeira das mulheres. Bancária e empresária líder na cidade de Kisumu, Omari disse à IPS que “os bancos não levam a sério as mulheres empresárias. Os bancos ainda estão longe de abraçar as mulheres que fazem negócios. Ainda somos consideradas de risco muito alto pelas instituições financeiras porque não temos garantias”.

Como única proprietária da Top Strategy Achievers Limited, uma empresa com uma marca de vários milhões de xelins, Omari está familiarizada com os desafios financeiros que as mulheres enfrentam atualmente nos negócios. “Comecei a trabalhar aos 23 anos no setor de hospitalidade. Eu também atuei como uma pessoa intermediária entre empresas de marca e clientes. Na cidade de Kisumu, esses serviços eram difíceis de encontrar. Guardei todas as moedas que ganhei e as usei como capital”, contou.

Omari registrou sua empresa em 2013 e iniciou suas operações no mesmo ano, enquanto ainda trabalhava em um banco local. “Meu salário pagou as duas equipes que eu tinha no começo, aluguel de escritório e todas as outras despesas gerais até que a empresa pudesse manter-se em pé”, explicou. Mulheres como Chelang não são consideradas rentáveis, e são significativamente limitadas na criação de infraestruturas físicas sólidas para impulsionar o crescimento e a sustentabilidade de seus negócios, acrescentou.

“Esta é a razão pela qual as mulheres trabalham por conta própria, basicamente para si mesmas, e não no empreendedorismo, em que há o maior número possível de funcionários a bordo”, apontou Omari. No seu caso, ela é uma empresária e não precisa estar no local de trabalho o tempo todo, porque o negócio pode prosperar e ser sustentável, mesmo na sua ausência. No trabalho por conta própria, a presença do proprietário da empresa acontece o tempo todo.

Francis Kibe Kiragu, professor de estudos de gênero e desenvolvimento da Universidade de Nairóbi, disse à IPS que, embora as mulheres tenham demonstrado suficientemente o desejo de administrar suas próprias empresas, elas sofrem uma exclusão financeira prejudicial. “As mulheres por conta própria ou empreendedoras são, portanto, motivadas pela necessidade e não pela inovação. Eles só querem atender às suas necessidades básicas e, como resultado, são percebidas como contribuindo muito pouco para a economia”, observou.

Devido a esses desafios, Kiragu pontuou que as mulheres têm mais probabilidade do que os homens de interromper a administração de um negócio. O relatório GEM 2017 confirma a sua afirmação, pois indica que, embora a África possa ter o maior número de mulheres executando startups, o número de mulheres com empresas estabelecidas é menor.

De fato, apenas na região da África Subsaariana, há duas mulheres iniciando um novo empreendimento para cada mulher que administra uma empresa estabelecida, indica o relatório. “Comecei a projetar, fabricar e comercializar meus móveis de paletes aos 25 anos. Dez anos depois, ainda estou enfrentando os mesmos desafios financeiros que enfrentei quando comecei. Muitas vezes cheguei perto de abandonar esse sonho e encontrar emprego”, contou Chelang.

Através do Afawa, espera-se que mulheres como Chelang em breve possam alavancar instrumentos financeiros em seu benefício e de seus negócios.

The post Superando a grande divisão de financiamento de gênero na África appeared first on IPS em português.

O futuro da alimentação na África realmente está com os jovens agricultores?

qui, 09/01/2020 - 10:14

IBADAN, Nigéria, 9 de janeiro de 2020 (IPS) – A África passará fome ou sobreviverá com importações caras de alimentos, porque não está cultivando novos agricultores, mostra uma pesquisa. E o desafio de atrair os jovens africanos para a agricultura permanece entre pesquisadores, formuladores de políticas, e atores do setor público e privado, em um continente onde um número crescente de pessoas vai dormir com fome todas as noites.

O Instituto Internacional de Agricultura Tropical (IITA), um instituição de pesquisa global que gera inovações agrícolas para enfrentar os desafios mais prementes da África, como fome, desnutrição e pobreza, promove há muito tempo vários programas para atrair e manter os jovens na agricultura.

Entretanto, tem sido uma tarefa difícil convencer os jovens de que a agricultura é a chave para a criação de empregos na África, disse à IPS a diretora-geral do IITA Nteranya Sanginga. “Eu pedi que os jovens definissem o que é a agricultura. Para eles, agricultura é dor, penúria e pobreza. Precisamos transformar essa mentalidade e fazê-los entender que a agricultura pode ser uma fonte de riqueza, negócios e prazer”, destacou

Em 2012, a instituição lançou o IITA Youth Agripreneur, um programa que inscreve, a cada ano, 60 jovens para treinamento prático em agricultura e empreendedorismo em 24 centros da África. Sanginga enfatizou que, a menos que a África promova novos agricultores inovadores, o continente estará à mercê de outras regiões por sua segurança alimentar.

    • A África tem 257 milhões de pessoas famintas, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).
    • Embora a África conte com 65% das terras aráveis e não cultivadas do mundo e recursos hídricos adequados, o continente gasta mais de US$ 35 bilhões anualmente importando alimentos – uma projeção do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) indica que pode atingir US$ 110 bilhões em 2025.
    • Cerca de 237 milhões de pessoas na África Subsaariana estão com desnutrição crônica, o que inviabiliza os ganhos já alcançados na erradicação da fome e da pobreza, constata a FAO no relatório conjunto de 2019, Visão Regional da África sobre Segurança e Nutrição Alimentar.
    • O relatório destaca a necessidade de se acelerar as ações para atingir a meta de desenvolvimento sustentável da ONU de alcançar a fome zero e as metas nutricionais globais em meio aos desafios do desemprego dos jovens e das mudanças climáticas.
    • “A agricultura e o setor rural devem desempenhar um papel fundamental na criação de empregos decentes para os 10 a 12 milhões de jovens que ingressam no mercado de trabalho a cada ano”, afirma a FAO.
    • No cerne do desafio alimentar está a diminuição da mão de obra. Os pequenos agricultores mantêm a África alimentada. A agricultura contribui com cerca de 30% para o PIB do continente, mas o setor é prejudicado pela baixa produtividade e pouco investimento, e a idade média de um pequeno agricultor na África é de 60 anos. No entanto, jovens agricultores não estão sendo formados com rapidez suficiente para diminuir a brecha de trabalho na produção agrícola.
    • A agricultura tem uma imagem negativa, de não ser atraente o suficiente para os jovens mais ambiciosos e experientes em tecnologia, que preferem se apertar nas áreas urbanas do que se tornar agricultores.
    • “Quando projetamos a agricultura como uma oportunidade econômica viável para jovens, devemos dizer a eles que é um processo e que é necessário sujar as mãos”, aponta Lawrence Afere (35), fundador da Springboard, uma rede online de produtores rurais no estado de Ondo, na Nigéria. O Springboard está trabalhando com mais de três mil membros em seis estados da Nigéria, plantando banana, feijão e arroz. A rede fornece insumos e treinamento para os agricultores e compra de volta os produtos para processar e agregar valor.

Tem sido uma tarefa difícil convencer os jovens de que a agricultura é fundamental para criar empregos na África, declarou à IPS a diretora-geral do IITA, Nteranya Sanginga. Crédito: Busani Bafana/IPS

As soluções para combater o desemprego juvenil na África são variadas, mas uma solução fundamental é vender a agricultura como empresa, argumentou Sanginga, que iniciou o Programa Start Them Early (STEP), que promove estudos do agronegócio junto a estudantes de escolas primárias e secundárias por meio da participação em clubes, trabalhos durante o curso e aprendizagem experimental. Além disso, o IITA adotou uma abordagem de pesquisa para atrair os mais jovens para a agricultura.

    • O instituto lançou um programa de bolsas de estudos e pesquisa de três anos, chamada Enhancing Capacity to Apply Evidence Research (Care), uma política para o envolvimento dos jovens no agronegócio e nas atividades econômicas rurais na África.
    • A bolsa de estudos orientada para a ação tem como alvo jovens acadêmicos e profissionais e estudantes de pós-graduação na fase de pós-curso ou pesquisa de seus programas. É financiado pelo Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida) e concedeu 30 dessas bolsas em 2019.
    • Oferece também oportunidades aos jovens, melhorando a disponibilidade e o uso de evidências para políticas inclusivas e “amigas dos jovens” sobre o envolvimento dos jovens no agronegócio e nas atividades econômicas rurais. A duração da pesquisa é de seis meses e os jovens são treinados na produção de evidências de pesquisa para a formulação de políticas.

O pesquisador universitário Akilimali Ephrem é um bolsista de 2019 no programa Care. Ele está pesquisando características de agricultores bem-sucedidos na República Democrática do Congo (RDC). “Identifiquei que os jovens não são atraídos pela agricultura e subestimam o valor dela, e isso tem a ver com a nossa cultura na RDC ”, ressaltou em entrevista à IPS.

“Os jovens estão lutando para conseguir emprego e estão concluindo seus estudos, e vi que esse projeto da Care é um caminho a seguir, porque examina a melhor maneira de envolver os jovens no agronegócio como uma alternativa de emprego”, pontuou Akilimali. O título da sua pesquisa é Normas Sociais Percebidas, Capital Psicológico e Intenção Empresarial dos Jovens na RDC.

“Todo mundo está dizendo que os jovens devem encontrar uma vida na agricultura e no agronegócio, mas ninguém nunca perguntou se esses jovens gostariam de fazê-lo ou desejam fazê-lo. Provavelmente deveríamos começar aumentando seu desejo de ingressar no agronegócio, caso contrário estaremos mirando nas pessoas erradas”, observou Akilimali, que identificou o capital psicológico – uma mentalidade positiva para o desenvolvimento – como um ingrediente essencial para qualquer empresário bem-sucedido no agronegócio.

    • Os jovens na África representarão 42% da população jovem global e 75% das pessoas com menos de 35 anos no continente, de acordo com a Folha de Dados da População Mundial de 2019, publicada pelo Population Reference Bureau, uma organização baseada nos Estados Unidos que informa sobre população, saúde e meio ambiente.
    • Na linguagem dos jovens, a agricultura não é “legal” por causa de sua associação com longas horas de trabalho árduo no campo, com pouco ganho.
    • O acesso limitado a crédito, financiamento, terra e tecnologia apropriada para aumentar a produtividade combinou-se para excluir os jovens do negócio da agricultura.

Os mercados de alimentos e bebidas da África devem atingir US$ 1 trilhão até 2030, segundo o BAD. Akinumwi Adesina, presidente do BAD, afirmou que tornar a agricultura lucrativa e “legal” para os jovens por meio do investimento é a solução para tirar milhões de africanos da pobreza e um modo de conter a maré da migração de jovens para a Europa em busca de uma vida melhor.

Mas o pesquisador de desenvolvimento Jim Sumberg, do Institute of Development Studies no Reino Unido, não está convencido de que a agricultura seja a bala de prata. Ele ponderou que a ideia de agricultura como um vasto domínio de oportunidades empresariais para jovens está sendo vendida em excesso, observando que existem oportunidades para alguns, mas para outros é um caso de trabalho árduo com pouca recompensa.

“Acredito que a ideia de que uma grande parte dos jovens esteja deixando áreas rurais e/ou a agricultura seja exagerada”, opinou Sumberg à IPS por e-mail. “Não há evidências reais. Além disso, por que alguém ia querer ‘atrair’ os jovens para um trabalho tedioso e mal remunerado? Isso não faz sentido! É verdade que uma agricultura modernizada fornecerá algumas oportunidades de emprego (para jovens e outros), mas duvido que sejam os milhões e milhões de empregos frequentemente prometidos”.

Sumberg declarou que tem pouca paciência com a ideia de mudar a mentalidade das pessoas, para que elas vejam “a agricultura como um negócio”. Só pode ser um negócio se houver potencial de lucro e, no momento, existem muitas situações em que o potencial não existe.

The post O futuro da alimentação na África realmente está com os jovens agricultores? appeared first on IPS em português.