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Atualizado: 12 minutos 27 segundos atrás

Removendo barreiras ao papel principal das mulheres na agricultura africana

qui, 04/03/2021 - 16:26

O artigo de opinião a seguir faz parte de uma série que marcará o Dia Internacional da Mulher, em 8 de março.

IBADAN, Nigéria, 4 de março de 2021 (IPS) – A população da África dobrará até 2050 se as taxas de crescimento continuarem sua trajetória atual, mas a criação de empregos não está acompanhando esse ritmo, com até cinco vezes mais jovens procurando colocação a cada ano. E, além disso, a pandemia de Covid está mergulhando a África em sua primeira recessão em 25 anos.

Mas, mais uma vez, a agricultura está demonstrando sua importância crucial em tempos de crise. Uma pesquisa recente do Banco Mundial, em cinco países africanos, mostrou que mais pessoas estão se voltando para a agricultura por causa dos impactos econômicos da pandemia. “Há evidências de que o setor agrícola está servindo como um amortecedor para famílias de baixa renda na região, semelhante ao papel que desempenhou durante a crise econômica global de 2008”, aponta a investigação.

Na Etiópia, por exemplo, 41% das famílias que receberam renda da agricultura nos últimos 12 meses relataram perda de ganho. Mas 85% das famílias experimentaram perda de renda em negócios familiares não agrícolas e 63% relataram uma redução nas remessas.

Com uma população maior dependendo da agricultura para segurança alimentar e como fonte de sustento, as mulheres e os jovens desempenharão um papel particularmente crítico no desenvolvimento da agricultura na África subsaariana, onde 40% a 60% de todas as mulheres empregadas trabalham na agricultura.

Com a mudança demográfica, é importante examinarmos o papel que as mulheres e os jovens desempenham na garantia da segurança alimentar na África subsaariana e entender como essas dinâmicas estão mudando, além de identificar os velhos e novos desafios enfrentados pelas mulheres.

Um estudo recente apoiado pelo Instituto Internacional de Agricultura Tropical (IITA), sem fins lucrativos, descobriu que, entre os estudantes universitários do último ano no noroeste da Nigéria, as mulheres jovens têm a mesma probabilidade de expressar a intenção de se envolver na agricultura após a graduação, assim como os homens. O Banco Mundial estima, no entanto, que atualmente as mulheres representam cerca de 37% da produção agrícola na Nigéria. Maiores investimentos na promoção das mulheres na agricultura podem beneficiar significativamente a produtividade.

O Conselho de Pesquisa Agrícola Internacional (CGIAR), uma parceria global que abrange várias organizações envolvidas na transformação de sistemas alimentares, argumenta que a atenção não deve repousar em estimativas inflacionadas de quantos alimentos as mulheres produzem, mas sim no “reconhecimento de que a remoção de barreiras que limitam o potencial das mulheres poderia ter o duplo benefício de aumentar rendimentos das mulheres agricultoras e oferecer mais alimentos para todos”.

As barreiras para uma maior produção agrícola não podem ser atribuídas a uma única causa. Terri Raney, editora do relatório da The State of Food and Agriculture, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), afirmou: “As mulheres agricultoras normalmente obtêm rendimentos mais baixos do que os homens, não porque sejam menos qualificadas, mas porque operam fazendas menores e usam menos insumos como fertilizantes, sementes melhoradas e ferramentas”.

Um relatório do Banco Mundial, de 2018, detalhou as lacunas de gênero na posse de propriedades na África subsaariana. Um de seus pontos mais importantes foi que as mulheres têm menos probabilidade de possuir terras ou casa do que os homens.

No entanto, mais barreiras estão sendo levantadas ao envolvimento das mulheres na agricultura, pois, sob a pressão de questões de segurança alimentar global, os governos da África subsaariana estão arrendando grandes extensões de terra para países e empresas estrangeiras. A Oxfam, em um relatório sobre grilagem de terras, enfatiza que muitas vezes isso prejudica as mulheres rurais: “Assim que um recurso natural ganha valor comercial no mercado internacional de commodities, o controle e as decisões sobre esse recurso passam rapidamente das mulheres rurais para as mãos dos homens”.

Embora aceite que a África subsaariana precisa de investimentos na agricultura, deve-se prestar atenção em como os trabalhadores rurais, especialmente as mulheres, podem não se beneficiar desses negócios.

O IITA lançou 80 bolsas de pesquisa para jovens acadêmicos africanos, com ênfase específica em profissionais e estudantes do sexo feminino, por meio do projeto Melhoria da Capacidade de Aplicação de Evidências de Pesquisa (Care), financiado pelo Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida), que visa ao desenvolvimento de políticas de agronegócio eficazes, que gerem sucesso para os jovens na África subsaariana.

O Fida está cada vez mais concentrando seus recursos nos jovens como uma prioridade, uma vez que a transformação rural bem-sucedida depende de sua inclusão no processo.

Os programas para jovens do IITA – como o IITA Youth Agripreneurs (IYA), o Empowering Novel Agri-Business-Led Employment (ENABLE Youth), o Young Africa Works, e o Start Them Early Program (Step) – estão focados no incentivo à participação e engajamento de crianças em idade escolar e jovens no agronegócio. Investir no futuro da geração mais jovem da África enfatiza a importância de aumentar a ambição dos alunos do ensino fundamental e médio para garantir um continente com segurança alimentar e nutricional. Isso também seria importante para o desenvolvimento de jovens líderes femininas na agricultura, cujas habilidades de liderança adquiridas as capacitarão a ajudar nos esforços de resposta e recuperação da Covid-19.

O IITA e organizações parceiras, como o Banco Africano de Desenvolvimento, a Fundação Mastercard, o Fida e o governo do Estado de Oyo, acreditam que a pobreza, a fome e a desnutrição na África não podem ser abordadas sem levar em consideração as restrições enfrentadas pelas mulheres e jovens agricultores que, na maioria das comunidades, fornecem a maior parte da mão-de-obra da fazenda familiar, bem como do processamento dos alimentos para os mercados e para o consumo familiar. Essas restrições são uma parte central da pesquisa apoiada pelo IITA por meio de seu projeto Care.

Em Camarões, Djomo Choumbou Raoul Fani examinou as contribuições e a competitividade das jovens agricultoras e suas recomendações incluem mudanças nos sistemas de posse da terra, controles de preços e sistemas de crédito. A pesquisa de Oluwaseun Oginni descobriu que 43% dos jovens que migram para áreas urbanas do interior da Nigéria são mulheres, e os principais motivos citados são “a busca por um futuro melhor, oportunidades educacionais e casamento”.

Cynthia Mkong analisou as motivações dos estudantes que escolhem a agricultura como curso universitário em Camarões, onde o desemprego feminino é o dobro do masculino. Mkong recomenda focar em políticas que melhorem a educação das meninas e aumentem a renda familiar em todos os níveis. Essas mudanças provavelmente reverterão o declínio do interesse dos jovens na agricultura.

O projeto Care do IITA está permitindo que as mulheres tragam experiências, perspectivas e habilidades diferentes para a mesa, que podem contribuir para decisões, políticas e leis que funcionam melhor para todos. Seu papel de liderança é agora cada vez mais crítico nos esforços de resposta e recuperação da Covid-19.

Ao marcarmos o Dia Internacional da Mulher em 8 de março, o IITA está empenhado em promover um maior envolvimento das mulheres para que o IITA possa desempenhar um papel mais significativo na pesquisa e no mundo. As mulheres são os líderes e construtores de que precisamos.

O autor é diretor-geral do IITA.

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A inovação bem-sucedida nas culturas está mitigando o impacto da crise climática na África

qua, 17/02/2021 - 18:45

Martin Kropff é diretor-geral do Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo, e Nteranya Sanginga é diretor-geral do Instituto Internacional de Agricultura Tropical.

 
IBADAN, Nigéria, e CIDADE DO MÉXICO, México, 17 de fevereiro de 2021 (IPS) – Os pequenos agricultores africanos não têm escolha a não ser se adaptar às mudanças climáticas: 2020 foi o segundo ano mais quente já registrado, enquanto secas prolongadas e enchentes explosivas ameaçam diretamente a subsistência de milhões . Na década de 2030, a falta de chuvas e o aumento das temperaturas podem tornar 40% da área de cultivo de milho da África inadequada para variedades vulneráveis ao clima, enquanto o milho continua sendo o alimento básico preferido e acessível para milhões de africanos que sobrevivem com menos que alguns dólares de renda por dia.

Os agricultores de todo o continente entendem que a crise climática está afetando suas colheitas e seu pão de cada dia. Na África subsaariana, um número crescente de pessoas apresenta desnutrição crônica, com mais de 21% da população sofrendo de insegurança alimentar grave.

A batalha global contra as mudanças climáticas, e todos os seus impactos interligados, requer uma abordagem multissetorial para formular respostas abrangentes. Para os agricultores da África Subsaariana, especialmente os pequenos proprietários, isso envolve a produção de variedades de cultivo melhoradas, que não são apenas de alto rendimento, mas também tolerantes à seca e ao calor, resistentes a doenças e pragas de insetos, e que possam contribuir para minimizar o risco de cultivos sob condições de seca.

O Conselho de Pesquisa Agrícola Internacional (CGIAR), uma parceria global envolvendo várias organizações engajadas na transformação de sistemas alimentares, está na vanguarda da inovação tecnológica e sua implantação por muitas décadas. O Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo (CIMMYT) e o Instituto Internacional de Agricultura Tropical (IITA) são os dois centros de pesquisa do CGIAR que realizam estudos inovadores sobre o milho e um trabalho de desenvolvimento em ambientes propensos ao estresse na África.

O desenvolvimento bem-sucedido de variedades de milho adaptadas ao clima para a África subsaariana foi liderado por esses dois centros do CGIAR, que implementaram projetos como o Milho Tolerante à Seca para a África (DTMA) e o Milho Tolerante ao Estresse para a África (STMA), em conjunto com parceiros do setor nacional e privado nos principais países produtores de milho na África Oriental, Meridional e Ocidental. Sob a iniciativa DTMA de 10 anos, cerca de 160 variedades de milho acessíveis e escaláveis foram lançadas.

Uma pequena agricultora no norte de Uganda em sua fazenda de milho DT. Foto: CIMMYT

Variedades de milho de alto rendimento, tolerantes ao estresse múltiplo, em que é usado o germoplasma de milho CIMMYT/IITA, lançadas depois de 2007 (o ano em que o projeto DTMA foi iniciado) são estimadas em cinco milhões de hectares em 2020 na África subsaariana. A adoção de variedades de milho tolerantes à seca (DT) ajudou a colocar milhões de pessoas acima da linha da pobreza em todo o continente. Por exemplo, no sul do Zimbábue, sujeito à seca, os agricultores que usam variedades DT em anos secos foram capazes de colher até 600 quilos a mais de milho por hectare – o suficiente para uma família média de seis pessoas por nove meses – do que os agricultores que semearam variedades convencionais.

O projeto STMA, que se seguiu ao DTMA, também operou na África subsaariana, onde 176 milhões de pessoas dependem do milho para nutrição e bem-estar econômico. O projeto, que terminou em 2020 – sucedido por um novo projeto chamado Acelerando Ganhos Genéticos para Melhoramento de Milho e Trigo (AGG) –, desenvolveu novas variedades de milho que podem ser cultivadas com sucesso sob seca, fertilidade do solo abaixo do ideal, estresse por calor e doenças e pragas. Em 2020, as variedades de milho tolerantes ao estresse relacionadas ao CGIAR foram estimadas em mais de cinco milhões de hectares, beneficiando mais de 8,6 milhões de pequenos agricultores em 13 países da África subsaariana.

Martin Kropff, diretor-geral do CIMMYT

No Quênia, os agricultores que utilizam as novas variedades de milho estão colhendo de 20% a 30% mais grãos do que os que não cultivam sementes tolerantes à seca. Prasanna Boddupalli, diretora do Programa Global de Milho do CIMMYT e do Programa de Pesquisa de Milho do CGIAR, diz que isso tem um efeito cascata nos meios de subsistência, melhorando o consumo nutricional da comunidade, ajudando as crianças a voltar à escola e reduzindo a pobreza.

Em uma entrevista ao blog Gates Notes, a agricultora queniana Veronica Nduku, que cultiva milho tolerante à seca do CIMMYT há dez anos, disse que sempre colhe, mesmo quando não há chuva.

Em Zâmbia, um estudo do CIMMYT e do Center for Development Research mostrou que o milho tolerante à seca pode aumentar os rendimentos em 38% e reduzir os riscos de quebra de safra em 36%, embora três quartos dos agricultores no estudo enfrentassem seca durante a pesquisa.

Além das variedades de milho melhoradas adaptáveis ao clima, tanto o CIMMYT quanto o IITA desenvolveram variedades de milho biofortificadas com pró-vitamina A. A deficiência de vitamina A é altamente prevalente em populações da África subsaariana, e essas variedades, desenvolvidas em parceria com a HarvestPlus, estão sendo implantadas em países-alvo em parceria com programas nacionais e empresas de sementes.

Comemorando o 50º aniversário de sua fundação neste ano, o CGIAR revelou seu roteiro para uma nova estratégia de dez anos na Cúpula de Adaptação ao Clima 2021, online, organizada pela Holanda em janeiro. A nova estratégia de pesquisa sustentável coloca as mudanças climáticas no centro de sua missão, com ênfase no realinhamento dos sistemas alimentares em todo o mundo, com foco em cinco áreas de impacto: nutrição, pobreza, inclusão, adaptação e mitigação do clima, saúde ambiental.

Por meio da transformação do sistema alimentar, sistemas agroalimentares resilientes e inovações genéticas, a ambição do CGIAR é atender e ir além dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, pediu um esforço global combinado para realinhar radicalmente os sistemas alimentares para atingir os 17 ODS até 2030. O CGIAR adverte que, sem mais intervenções baseadas na ciência para alinhar a agricultura com as metas climáticas, o número de pessoas subnutridas em todo o mundo pode ultrapassar 840 milhões até 2030.

Nteranya Sanginga, diretor-geral do IITA

Para mudar seu foco e investimento em pesquisas agrícolas que respondam à crise climática, o CGIAR está passando por uma reforma institucional. Chamada de Um CGIAR, a reformulação dinâmica das parcerias, conhecimentos, ativos e presença global do CGIAR visa a uma maior integração e impacto em face dos desafios interdependentes que o mundo de hoje enfrenta. As inovações científicas em sistemas alimentares, terrestres e hídricos serão implantadas mais rapidamente, em maior escala e com custo reduzido, tendo maior impacto onde são mais necessárias.

O progresso pioneiro até o momento não teria sido possível sem o generoso financiamento da Fundação Bill & Melinda Gates. Mesmo assim, Bill Gates, que reconhece o papel essencial do CGIAR em “alimentar nosso futuro”, também aponta que os níveis atuais de investimento não chegam nem à metade do que é necessário.

Os investimentos em melhoramento de milho e inovações no sistema de sementes devem se expandir para acompanhar a capacidade de resistir à variabilidade climática na África subsaariana, a região mais cronicamente desnutrida do mundo, e fornecer segurança alimentar e nutricional para milhões de pequenos produtores dependentes de milho e com recursos limitados, e consumidores.

No CIMMYT e no IITA, investimos no melhoramento de longo prazo para aumentar os ganhos genéticos, usando muitas novas ferramentas e tecnologias. Esses esforços precisam ser intensificados. Também é necessário mais financiamento para que sementes de qualidade de variedades de milho resistentes ao clima cheguem aos pequenos proprietários. Enquanto 77% das famílias zambianas entrevistadas para o estudo disseram que experimentaram seca em 2015, apenas 44% sabiam sobre o milho tolerante à seca.

Ciente de que a adoção de novas tecnologias e práticas pode ser arriscada para agricultores com poucos recursos, que não desfrutam da proteção de redes de segurança de bem-estar social nos países ricos, o CIMMYT incentiva os agricultores, empresas de sementes e outros usuários finais a envolverem-se no processo de desenvolvimento.

Não é suficiente reduzir as emissões de carbono. Os agricultores africanos precisam se adaptar rapidamente ao aumento das temperaturas, secas prolongadas e inundações violentas e devastadoras. Com variedades de milho de maior rendimento e tolerantes ao estresse, os pequenos agricultores têm a oportunidade não apenas de combater as variabilidades climáticas, doenças e pragas, mas também de diversificar efetivamente suas fazendas. Isso lhes permitirá, por sua vez, uma melhor adaptação às mudanças climáticas e acesso a dietas balanceadas e acessíveis. À medida que as mudanças climáticas se intensificam, as inovações agrícolas também devem ocorrer. É hora de uma abordagem incomum para os negócios.

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ENTREVISTAS DO BOLETIM INFORMATIVO DO FUNDO A EDUCAÇÃO NÃO PODE ESPERAR SECRETÁRIO-GERAL DAS NAÇÕES UNIDAS, ANTÓNIO GUTERRES

sex, 05/02/2021 - 04:52

ECW: Por que motivos a educação é uma prioridade nas emergências e crises prolongadas?

António Guterres: A pandemia de COVID-19 devastou as sociedades e criou a maior desestabilização de sempre nos sistemas educativos, afetando mais de 1,5 mil milhões de estudantes. Embora tenham sido aplicadas soluções de ensino à distância, uma em cada três crianças não teve acesso a essas oportunidades, o que expôs e agravou desigualdades e vulnerabilidades, em especial para aqueles que se encontram em situação de crise. Em tais circunstâncias, a educação protege as raparigas e os rapazes da violência e da exploração sexuais, do tráfico, da gravidez precoce e do casamento infantil, do recrutamento forçado para grupos armados e do trabalho infantil. Também assegura que continuem a aprender, oferecendo-lhes esperança para o futuro. Ao entrarmos em 2021, a educação tem de estar no cerne da resposta à pandemia e dos esforços de recuperação. Sem um compromisso político resoluto dos dirigentes mundiais, bem como recursos adicionais para o fundo “A educação não pode esperar” e os seus parceiros da ONU e da sociedade civil, milhões de raparigas e rapazes poderão nunca voltar à escola. O investimento na educação dessas crianças e jovens vulneráveis é um investimento na paz, na prosperidade e na resiliência das gerações vindouras, bem como uma prioridade para as Nações Unidas.

ECW: Por que motivos é importante facilitar uma maior colaboração entre os atores humanitários e os do desenvolvimento em contextos de crise?

António Guterres: Com a intensificação dos conflitos, as catástrofes relacionadas com as alterações climáticas, os deslocamentos forçados a atingirem níveis sem precedentes e as crises a prolongarem-se mais do que nunca, as necessidades humanitárias continuam a crescer a um ritmo que supera a resposta, apesar da generosidade dos doadores de ajuda. As parcerias são cruciais para transformar o sistema de ajuda, acabar com as compartimentações e assegurar que a ajuda seja mais eficiente e economicamente racional. Os programas para a educação integral da criança oferecem um caminho comprovado para as partes interessadas colaborarem no sentido de habilitar as crianças e os jovens vulneráveis para o acesso a uma educação de qualidade em ambientes de aprendizagem seguros, com vista a que concretizem o seu pleno potencial.

ECW: Que mensagem gostaria de partilhar com as raparigas e os rapazes afetados pela crise, cujo direito à educação ainda está por realizar?

António Guterres: Acima de tudo, presto-lhes homenagem pela sua resiliência e comprometo-me a trabalhar com os governos, a sociedade civil e todos os parceiros a fim de superar a pandemia e a crise, que têm constituído reveses tão profundos nas suas vidas. Temos também de intensificar os nossos esforços para reimaginar a educação, formando professores, colmatando o fosso digital e repensando os currículos, no sentido de dotar os educandos de competências e conhecimentos para prosperarem no nosso mundo em rápida mudança.

ECW: Enquanto estudante do ensino secundário em Portugal, ganhou o “Prémio Nacional dos Liceus” como melhor estudante do país. Depois de concluir os estudos universitários em engenharia, iniciou uma carreira como professor. Pode dizer-nos o que significa a educação para si?

António Guterres: Muito antes de exercer funções nas Nações Unidas ou ocupar cargos públicos, fui professor. Nos bairros degradados de Lisboa, vi que a educação é um motor para a erradicação da pobreza e uma força para a paz. Hoje em dia, a educação está na essência dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Precisamos de educação para reduzir as desigualdades, alcançar a igualdade de género, proteger o nosso planeta, combater o discurso de ódio e fomentar a cidadania global. A defesa da nossa promessa de não deixar ninguém para trás começa pela educação.

ECW: Após a turbulência de 2020, qual é a sua mensagem para o mundo ao entrarmos em 2021?

António Guterres: 2020 trouxe-nos tragédia e perigo. 2021 tem de ser o ano para mudar de velocidade e pôr o mundo no caminho certo. A pandemia fez-nos chegar a um momento crucial. Podemos deixar para trás um annus horribilis para fazer de 2021 um “annus possibilitatis”: um ano de possibilidade e esperança. Temos de o fazer acontecer, em conjunto.

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