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Atualizado: 10 minutos 29 segundos atrás

O futuro da alimentação na África realmente está com os jovens agricultores?

qui, 09/01/2020 - 10:14

IBADAN, Nigéria, 9 de janeiro de 2020 (IPS) – A África passará fome ou sobreviverá com importações caras de alimentos, porque não está cultivando novos agricultores, mostra uma pesquisa. E o desafio de atrair os jovens africanos para a agricultura permanece entre pesquisadores, formuladores de políticas, e atores do setor público e privado, em um continente onde um número crescente de pessoas vai dormir com fome todas as noites.

O Instituto Internacional de Agricultura Tropical (IITA), um instituição de pesquisa global que gera inovações agrícolas para enfrentar os desafios mais prementes da África, como fome, desnutrição e pobreza, promove há muito tempo vários programas para atrair e manter os jovens na agricultura.

Entretanto, tem sido uma tarefa difícil convencer os jovens de que a agricultura é a chave para a criação de empregos na África, disse à IPS a diretora-geral do IITA Nteranya Sanginga. “Eu pedi que os jovens definissem o que é a agricultura. Para eles, agricultura é dor, penúria e pobreza. Precisamos transformar essa mentalidade e fazê-los entender que a agricultura pode ser uma fonte de riqueza, negócios e prazer”, destacou

Em 2012, a instituição lançou o IITA Youth Agripreneur, um programa que inscreve, a cada ano, 60 jovens para treinamento prático em agricultura e empreendedorismo em 24 centros da África. Sanginga enfatizou que, a menos que a África promova novos agricultores inovadores, o continente estará à mercê de outras regiões por sua segurança alimentar.

    • A África tem 257 milhões de pessoas famintas, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).
    • Embora a África conte com 65% das terras aráveis e não cultivadas do mundo e recursos hídricos adequados, o continente gasta mais de US$ 35 bilhões anualmente importando alimentos – uma projeção do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) indica que pode atingir US$ 110 bilhões em 2025.
    • Cerca de 237 milhões de pessoas na África Subsaariana estão com desnutrição crônica, o que inviabiliza os ganhos já alcançados na erradicação da fome e da pobreza, constata a FAO no relatório conjunto de 2019, Visão Regional da África sobre Segurança e Nutrição Alimentar.
    • O relatório destaca a necessidade de se acelerar as ações para atingir a meta de desenvolvimento sustentável da ONU de alcançar a fome zero e as metas nutricionais globais em meio aos desafios do desemprego dos jovens e das mudanças climáticas.
    • “A agricultura e o setor rural devem desempenhar um papel fundamental na criação de empregos decentes para os 10 a 12 milhões de jovens que ingressam no mercado de trabalho a cada ano”, afirma a FAO.
    • No cerne do desafio alimentar está a diminuição da mão de obra. Os pequenos agricultores mantêm a África alimentada. A agricultura contribui com cerca de 30% para o PIB do continente, mas o setor é prejudicado pela baixa produtividade e pouco investimento, e a idade média de um pequeno agricultor na África é de 60 anos. No entanto, jovens agricultores não estão sendo formados com rapidez suficiente para diminuir a brecha de trabalho na produção agrícola.
    • A agricultura tem uma imagem negativa, de não ser atraente o suficiente para os jovens mais ambiciosos e experientes em tecnologia, que preferem se apertar nas áreas urbanas do que se tornar agricultores.
    • “Quando projetamos a agricultura como uma oportunidade econômica viável para jovens, devemos dizer a eles que é um processo e que é necessário sujar as mãos”, aponta Lawrence Afere (35), fundador da Springboard, uma rede online de produtores rurais no estado de Ondo, na Nigéria. O Springboard está trabalhando com mais de três mil membros em seis estados da Nigéria, plantando banana, feijão e arroz. A rede fornece insumos e treinamento para os agricultores e compra de volta os produtos para processar e agregar valor.

Tem sido uma tarefa difícil convencer os jovens de que a agricultura é fundamental para criar empregos na África, declarou à IPS a diretora-geral do IITA, Nteranya Sanginga. Crédito: Busani Bafana/IPS

As soluções para combater o desemprego juvenil na África são variadas, mas uma solução fundamental é vender a agricultura como empresa, argumentou Sanginga, que iniciou o Programa Start Them Early (STEP), que promove estudos do agronegócio junto a estudantes de escolas primárias e secundárias por meio da participação em clubes, trabalhos durante o curso e aprendizagem experimental. Além disso, o IITA adotou uma abordagem de pesquisa para atrair os mais jovens para a agricultura.

    • O instituto lançou um programa de bolsas de estudos e pesquisa de três anos, chamada Enhancing Capacity to Apply Evidence Research (Care), uma política para o envolvimento dos jovens no agronegócio e nas atividades econômicas rurais na África.
    • A bolsa de estudos orientada para a ação tem como alvo jovens acadêmicos e profissionais e estudantes de pós-graduação na fase de pós-curso ou pesquisa de seus programas. É financiado pelo Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida) e concedeu 30 dessas bolsas em 2019.
    • Oferece também oportunidades aos jovens, melhorando a disponibilidade e o uso de evidências para políticas inclusivas e “amigas dos jovens” sobre o envolvimento dos jovens no agronegócio e nas atividades econômicas rurais. A duração da pesquisa é de seis meses e os jovens são treinados na produção de evidências de pesquisa para a formulação de políticas.

O pesquisador universitário Akilimali Ephrem é um bolsista de 2019 no programa Care. Ele está pesquisando características de agricultores bem-sucedidos na República Democrática do Congo (RDC). “Identifiquei que os jovens não são atraídos pela agricultura e subestimam o valor dela, e isso tem a ver com a nossa cultura na RDC ”, ressaltou em entrevista à IPS.

“Os jovens estão lutando para conseguir emprego e estão concluindo seus estudos, e vi que esse projeto da Care é um caminho a seguir, porque examina a melhor maneira de envolver os jovens no agronegócio como uma alternativa de emprego”, pontuou Akilimali. O título da sua pesquisa é Normas Sociais Percebidas, Capital Psicológico e Intenção Empresarial dos Jovens na RDC.

“Todo mundo está dizendo que os jovens devem encontrar uma vida na agricultura e no agronegócio, mas ninguém nunca perguntou se esses jovens gostariam de fazê-lo ou desejam fazê-lo. Provavelmente deveríamos começar aumentando seu desejo de ingressar no agronegócio, caso contrário estaremos mirando nas pessoas erradas”, observou Akilimali, que identificou o capital psicológico – uma mentalidade positiva para o desenvolvimento – como um ingrediente essencial para qualquer empresário bem-sucedido no agronegócio.

    • Os jovens na África representarão 42% da população jovem global e 75% das pessoas com menos de 35 anos no continente, de acordo com a Folha de Dados da População Mundial de 2019, publicada pelo Population Reference Bureau, uma organização baseada nos Estados Unidos que informa sobre população, saúde e meio ambiente.
    • Na linguagem dos jovens, a agricultura não é “legal” por causa de sua associação com longas horas de trabalho árduo no campo, com pouco ganho.
    • O acesso limitado a crédito, financiamento, terra e tecnologia apropriada para aumentar a produtividade combinou-se para excluir os jovens do negócio da agricultura.

Os mercados de alimentos e bebidas da África devem atingir US$ 1 trilhão até 2030, segundo o BAD. Akinumwi Adesina, presidente do BAD, afirmou que tornar a agricultura lucrativa e “legal” para os jovens por meio do investimento é a solução para tirar milhões de africanos da pobreza e um modo de conter a maré da migração de jovens para a Europa em busca de uma vida melhor.

Mas o pesquisador de desenvolvimento Jim Sumberg, do Institute of Development Studies no Reino Unido, não está convencido de que a agricultura seja a bala de prata. Ele ponderou que a ideia de agricultura como um vasto domínio de oportunidades empresariais para jovens está sendo vendida em excesso, observando que existem oportunidades para alguns, mas para outros é um caso de trabalho árduo com pouca recompensa.

“Acredito que a ideia de que uma grande parte dos jovens esteja deixando áreas rurais e/ou a agricultura seja exagerada”, opinou Sumberg à IPS por e-mail. “Não há evidências reais. Além disso, por que alguém ia querer ‘atrair’ os jovens para um trabalho tedioso e mal remunerado? Isso não faz sentido! É verdade que uma agricultura modernizada fornecerá algumas oportunidades de emprego (para jovens e outros), mas duvido que sejam os milhões e milhões de empregos frequentemente prometidos”.

Sumberg declarou que tem pouca paciência com a ideia de mudar a mentalidade das pessoas, para que elas vejam “a agricultura como um negócio”. Só pode ser um negócio se houver potencial de lucro e, no momento, existem muitas situações em que o potencial não existe.

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Riqueza mineral da África pode ter que permanecer no solo

seg, 07/10/2019 - 12:02

BULAWAYO, Zimbábue, 7 de outubro de 2019 (IPS) – Como resultado das mudanças climáticas, a indústria de extração de recursos na África será impactada pelo encalhe de ativos, dizem pesquisadores. “Vários ativos naturais se tornarão inviáveis comercialmente em todo o mundo, como resultado das mudanças climáticas e da incapacidade dos países de explorá-los”, disse Vanessa Ushie, gerente da divisão de análise de políticas do Centro Africano de Recursos Naturais da África do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), que ajuda os países africanos a alavancar seus recursos naturais para o desenvolvimento sustentável.

Ushie explicou à IPS que esse encalhe é uma questão política cada vez mais importante que os países africanos devem considerar, porque são altamente dependentes dos recursos naturais, com uma média de 70% de suas exportações sendo de minerais. Enquanto luta para alcançar seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) – um conjunto de objetivos globais identificados pela Organização das Nações Unidas (ONU) para acabar com a pobreza e a desigualdade entre os Estados membros –, uma riqueza de recursos naturais que poderiam ser usados para o desenvolvimento da África permanece em grande parte inexplorada.

Cerca de 30% das reservas minerais do mundo – incluindo platina, ouro, diamantes e carvão – encontram-se na África, mas o continente ainda apresenta altos níveis de pobreza. Além disso, também possui 10% das reservas mundiais de petróleo e 8% das de gás natural, de acordo com o BAD. As mudanças climáticas estão ameaçando a exploração desses recursos e, mais importante, de fontes de energia não renováveis (carvão, petróleo e gás).

Mantê-los no chão

Como resultado do impacto das mudanças climáticas, a África tem opções difíceis quando se trata de seus recursos minerais, afirmam pesquisadores. Conseguiria manter os recursos no solo e arriscar a estagnação econômica ou encontrar rentabilidade em fontes de energia limpa?

“Estamos cientes do Acordo de Paris e do compromisso dos países africanos, assim como seus pares globais, de reduzir as emissões de carbono, a fim de atingir a meta de manter o aquecimento global abaixo de 2° Celsius”, observou Ushie. “Com esse objetivo, fica claro que certos minerais terão que ser deixados no solo, especialmente aqueles que emitem mais carbono”, pontuou.

O BAD diz que “ativos ociosos” atraíram muito interesse nos últimos anos, pois as mudanças climáticas justificam uma transição para o desenvolvimento de baixo carbono no setor de recursos naturais. Mais de 185 países concordaram em deixar dois terços dos combustíveis fósseis comprovados no solo para cumprir a meta climática do Acordo de Paris. Em 2017, a Agência Internacional de Energia alertou que ativos de petróleo e gás no valor de US$ 1,3 trilhão poderiam ser abandonados até 2050, se a indústria de combustíveis fósseis não se adaptar a políticas climáticas mais ecológicas.

Falando no final da Cúpula de Ação Climática da ONU, a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz e ex-presidente da Irlanda, Mary Robinson, assinalou que os líderes mundiais devem considerar a indignação de milhões de pessoas em todo o mundo que marcham contra as mudanças climáticas e pedem o fim do uso de combustíveis fósseis. “Instamos todas as nações a se comprometerem a alcançar a neutralidade do carbono antes de 2050, para encerrar imediatamente a construção e o investimento em energia de carvão e implementar uma transição verde que seja justa e equitativa”, destacou Robinson.

Ativos ociosos

Muitos países africanos estão extraindo carvão, gás e petróleo com novas descobertas, sinalizando fortunas futuras que podem ser difíceis de perder. Em 2019, a empresa francesa de petróleo Total tornou pública sua descoberta de um grande condensado de gás (gás natural líquido) na África do Sul. O condensado de gás é mais valorizado que o petróleo bruto. No Quênia, a companhia britânica de petróleo Tullow Oil projetou 2024 como a provável data até a qual o país pode esperar ganhos com seu petróleo na região de Turkana. Também foram descobertas vastas reservas de petróleo em Uganda.

Para o continente africano, um retardatário do boom dos combustíveis fósseis, argumentos a favor da perda de ativos podem influenciar os ganhos de desenvolvimento e também interromper o crescimento econômico. Ushie apontou que alguns ativos serão perdidos devido a alterações nos mercados e fluxos de investimento, à medida que empresas extrativistas e investidores globais ajustam suas carteiras para atender às novas regulamentações de baixo carbono. Outros ativos estão em risco devido à transformação da demanda dos consumidores, como o crescente uso de energia solar e veículos elétricos nos países desenvolvidos.

Uma oportunidade ou obstáculo?

“Com a expansão das mudanças climáticas e a consequente transição para o baixo carbono, o setor de mineração da África enfrenta sérios riscos e algumas oportunidades”, argumentou Ushie à IPS, observando que os países africanos precisam entender e responder ao novo normal. O BAD está promovendo uma abordagem diversificada para o fornecimento de energia e o gerenciamento integrado de recursos naturais. A solução reside no investimento em energia localizada e com eficiência de recursos, como projetos solares, eólicos e de biomassa locais descentralizados, de propriedade da comunidade.

Até 2020, o Banco Mundial terá contribuído com US$ 17 bilhões para o financiamento climático para a África, por meio de seu Plano de Ação para Mudanças Climáticas. Além disso, o NDC África do Banco Mundial apoiou os países africanos a implementar suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) sob o Acordo de Paris e ajuda os países a atrair oportunidades de financiamento para a sustentabilidade, como títulos verdes, para apoiar a adaptação às mudanças climáticas em países de alto risco.

Evidências de pesquisa para políticas de baixo carbono

“Queremos modelar cenários sob os quais ocorram encalhes para vários minerais e combustíveis fósseis e fornecer conselhos políticos aos governos sobre como eles podem responder a esse risco”, afirmou Ushie. “Deveria haver um debate público robusto sobre ativos e recursos minerais ociosos, e é por isso que o BAD está envolvido em plataformas políticas, como o Fórum Intergovernamental sobre Mineração, Metais e Desenvolvimento Sustentável”, acrescentou.

O Fórum Intergovernamental sobre Mineração, Minerais, Metais e Desenvolvimento Sustentável, a ser realizado em Genebra entre 7 e 11 de outubro, tem o tema Mineração em um Clima em Mudança, indicando que, mesmo em nível global, há um reconhecimento de que a extração de recursos está sendo impactada pelas mudanças climáticas. O Fórum é uma boa oportunidade para o Centro Africano de Recursos Naturais e o BAD se engajarem em um diálogo político global sobre o futuro da mineração, que é um setor crítico na África, destacou.

Fatima Denton, diretora do Instituto de Recursos Naturais da Universidade das Nações Unidas, disse à IPS que a mudança global com relação aos combustíveis fósseis e aos custos da tecnologia das energias renováveis são uma oportunidade para o continente africano aumentar o investimento em fontes de energia verde. Com a rápida urbanização da maioria das economias africanas, juntamente com a crescente demanda por eletricidade, os países africanos começaram a aproveitar essa oportunidade para aumentar o investimento em energias renováveis, ressaltou.

Um estudo de 2018 da Bloomberg Finance indica que os países em desenvolvimento estão começando a liderar a transição global para a energia limpa. Uma capacidade total de energia de 114 Gigawatts (GW) com zero carbono foi adicionada nos países em desenvolvimento em 2017, em comparação com os 63 GW adicionados nos países mais ricos.

Com a queda nos preços globais do gás, mais países africanos estavam se concentrando no crescimento dessa exploração. Mas as energias renováveis têm maior necessidade de metais e materiais, criando oportunidades para os países africanos com reservas desses recursos essenciais para a construção de transmissão eólica, solar e elétrica.

“Apesar das oportunidades mencionadas, há o desafio de quando as economias africanas realmente esgotarão seus ativos de combustíveis fósseis e a falta de financiamento para investir em oportunidades de crescimento verde, conforme declarado em suas NDCs”, pontuou Denton. A segurança energética em um futuro de baixo carbono implica a transição para fontes renováveis limpas, não como um fim em si, mas como um meio para alcançar o desenvolvimento sustentável em setores críticos como agricultura, mineração, saúde e educação, indicou.

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