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Atualizado: 55 minutos 12 segundos atrás

Riqueza mineral da África pode ter que permanecer no solo

seg, 07/10/2019 - 12:02

BULAWAYO, Zimbábue, 7 de outubro de 2019 (IPS) – Como resultado das mudanças climáticas, a indústria de extração de recursos na África será impactada pelo encalhe de ativos, dizem pesquisadores. “Vários ativos naturais se tornarão inviáveis comercialmente em todo o mundo, como resultado das mudanças climáticas e da incapacidade dos países de explorá-los”, disse Vanessa Ushie, gerente da divisão de análise de políticas do Centro Africano de Recursos Naturais da África do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), que ajuda os países africanos a alavancar seus recursos naturais para o desenvolvimento sustentável.

Ushie explicou à IPS que esse encalhe é uma questão política cada vez mais importante que os países africanos devem considerar, porque são altamente dependentes dos recursos naturais, com uma média de 70% de suas exportações sendo de minerais. Enquanto luta para alcançar seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) – um conjunto de objetivos globais identificados pela Organização das Nações Unidas (ONU) para acabar com a pobreza e a desigualdade entre os Estados membros –, uma riqueza de recursos naturais que poderiam ser usados para o desenvolvimento da África permanece em grande parte inexplorada.

Cerca de 30% das reservas minerais do mundo – incluindo platina, ouro, diamantes e carvão – encontram-se na África, mas o continente ainda apresenta altos níveis de pobreza. Além disso, também possui 10% das reservas mundiais de petróleo e 8% das de gás natural, de acordo com o BAD. As mudanças climáticas estão ameaçando a exploração desses recursos e, mais importante, de fontes de energia não renováveis (carvão, petróleo e gás).

Mantê-los no chão

Como resultado do impacto das mudanças climáticas, a África tem opções difíceis quando se trata de seus recursos minerais, afirmam pesquisadores. Conseguiria manter os recursos no solo e arriscar a estagnação econômica ou encontrar rentabilidade em fontes de energia limpa?

“Estamos cientes do Acordo de Paris e do compromisso dos países africanos, assim como seus pares globais, de reduzir as emissões de carbono, a fim de atingir a meta de manter o aquecimento global abaixo de 2° Celsius”, observou Ushie. “Com esse objetivo, fica claro que certos minerais terão que ser deixados no solo, especialmente aqueles que emitem mais carbono”, pontuou.

O BAD diz que “ativos ociosos” atraíram muito interesse nos últimos anos, pois as mudanças climáticas justificam uma transição para o desenvolvimento de baixo carbono no setor de recursos naturais. Mais de 185 países concordaram em deixar dois terços dos combustíveis fósseis comprovados no solo para cumprir a meta climática do Acordo de Paris. Em 2017, a Agência Internacional de Energia alertou que ativos de petróleo e gás no valor de US$ 1,3 trilhão poderiam ser abandonados até 2050, se a indústria de combustíveis fósseis não se adaptar a políticas climáticas mais ecológicas.

Falando no final da Cúpula de Ação Climática da ONU, a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz e ex-presidente da Irlanda, Mary Robinson, assinalou que os líderes mundiais devem considerar a indignação de milhões de pessoas em todo o mundo que marcham contra as mudanças climáticas e pedem o fim do uso de combustíveis fósseis. “Instamos todas as nações a se comprometerem a alcançar a neutralidade do carbono antes de 2050, para encerrar imediatamente a construção e o investimento em energia de carvão e implementar uma transição verde que seja justa e equitativa”, destacou Robinson.

Ativos ociosos

Muitos países africanos estão extraindo carvão, gás e petróleo com novas descobertas, sinalizando fortunas futuras que podem ser difíceis de perder. Em 2019, a empresa francesa de petróleo Total tornou pública sua descoberta de um grande condensado de gás (gás natural líquido) na África do Sul. O condensado de gás é mais valorizado que o petróleo bruto. No Quênia, a companhia britânica de petróleo Tullow Oil projetou 2024 como a provável data até a qual o país pode esperar ganhos com seu petróleo na região de Turkana. Também foram descobertas vastas reservas de petróleo em Uganda.

Para o continente africano, um retardatário do boom dos combustíveis fósseis, argumentos a favor da perda de ativos podem influenciar os ganhos de desenvolvimento e também interromper o crescimento econômico. Ushie apontou que alguns ativos serão perdidos devido a alterações nos mercados e fluxos de investimento, à medida que empresas extrativistas e investidores globais ajustam suas carteiras para atender às novas regulamentações de baixo carbono. Outros ativos estão em risco devido à transformação da demanda dos consumidores, como o crescente uso de energia solar e veículos elétricos nos países desenvolvidos.

Uma oportunidade ou obstáculo?

“Com a expansão das mudanças climáticas e a consequente transição para o baixo carbono, o setor de mineração da África enfrenta sérios riscos e algumas oportunidades”, argumentou Ushie à IPS, observando que os países africanos precisam entender e responder ao novo normal. O BAD está promovendo uma abordagem diversificada para o fornecimento de energia e o gerenciamento integrado de recursos naturais. A solução reside no investimento em energia localizada e com eficiência de recursos, como projetos solares, eólicos e de biomassa locais descentralizados, de propriedade da comunidade.

Até 2020, o Banco Mundial terá contribuído com US$ 17 bilhões para o financiamento climático para a África, por meio de seu Plano de Ação para Mudanças Climáticas. Além disso, o NDC África do Banco Mundial apoiou os países africanos a implementar suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) sob o Acordo de Paris e ajuda os países a atrair oportunidades de financiamento para a sustentabilidade, como títulos verdes, para apoiar a adaptação às mudanças climáticas em países de alto risco.

Evidências de pesquisa para políticas de baixo carbono

“Queremos modelar cenários sob os quais ocorram encalhes para vários minerais e combustíveis fósseis e fornecer conselhos políticos aos governos sobre como eles podem responder a esse risco”, afirmou Ushie. “Deveria haver um debate público robusto sobre ativos e recursos minerais ociosos, e é por isso que o BAD está envolvido em plataformas políticas, como o Fórum Intergovernamental sobre Mineração, Metais e Desenvolvimento Sustentável”, acrescentou.

O Fórum Intergovernamental sobre Mineração, Minerais, Metais e Desenvolvimento Sustentável, a ser realizado em Genebra entre 7 e 11 de outubro, tem o tema Mineração em um Clima em Mudança, indicando que, mesmo em nível global, há um reconhecimento de que a extração de recursos está sendo impactada pelas mudanças climáticas. O Fórum é uma boa oportunidade para o Centro Africano de Recursos Naturais e o BAD se engajarem em um diálogo político global sobre o futuro da mineração, que é um setor crítico na África, destacou.

Fatima Denton, diretora do Instituto de Recursos Naturais da Universidade das Nações Unidas, disse à IPS que a mudança global com relação aos combustíveis fósseis e aos custos da tecnologia das energias renováveis são uma oportunidade para o continente africano aumentar o investimento em fontes de energia verde. Com a rápida urbanização da maioria das economias africanas, juntamente com a crescente demanda por eletricidade, os países africanos começaram a aproveitar essa oportunidade para aumentar o investimento em energias renováveis, ressaltou.

Um estudo de 2018 da Bloomberg Finance indica que os países em desenvolvimento estão começando a liderar a transição global para a energia limpa. Uma capacidade total de energia de 114 Gigawatts (GW) com zero carbono foi adicionada nos países em desenvolvimento em 2017, em comparação com os 63 GW adicionados nos países mais ricos.

Com a queda nos preços globais do gás, mais países africanos estavam se concentrando no crescimento dessa exploração. Mas as energias renováveis têm maior necessidade de metais e materiais, criando oportunidades para os países africanos com reservas desses recursos essenciais para a construção de transmissão eólica, solar e elétrica.

“Apesar das oportunidades mencionadas, há o desafio de quando as economias africanas realmente esgotarão seus ativos de combustíveis fósseis e a falta de financiamento para investir em oportunidades de crescimento verde, conforme declarado em suas NDCs”, pontuou Denton. A segurança energética em um futuro de baixo carbono implica a transição para fontes renováveis limpas, não como um fim em si, mas como um meio para alcançar o desenvolvimento sustentável em setores críticos como agricultura, mineração, saúde e educação, indicou.

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Banco Africano de Desenvolvimento planeja um continente autossuficiente, integrado e industrializado

seg, 16/09/2019 - 12:24

JOANESBURGO, África do Sul / BULAWAYO, Zimbábue, 16 de setembro de 2019 (IPS) – Arama Sire Camara, uma vendedora de frutas e legumes da província de Kindia, a cerca de 135 quilômetros de Conakry, capital da Guiné, sente-se mais segura durante a noite graças ao Projeto de Eletrificação Rural, financiado por um investimento de US$ 21 milhões do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD). “A iluminação na estrada à noite e nos nossos produtos significa que estamos mais seguros, especialmente com todos os carros na estrada. Podemos trabalhar por mais tempo após o anoitecer, e assim produzir mais”, contou.

Shuaibu Yusuf, um agricultor da Nigéria, agora pode pagar não apenas pelos alimentos para sua família, graças aos seus altos rendimentos resultantes do fertilizante de alta qualidade que ele é capaz de obter por meio do programa Feed Africa do BAD, mas também pode pagar os gastos com a educação dos filhos e as contas médicas de sua família.

Na província de Limpopo, na África do Sul, Sarina Malatji, agora com 39 anos e mãe de três filhos, cresceu em uma área onde o acesso à educação era limitado. Mas – graças ao investimento do BAD na Iniciativa de Liderança Medupi e na Academia de Empreiteiros da concessionária estatal Eskom – sua vida agora está muito longe daquela de sua infância. Atualmente, ela é dona de seu próprio negócio de limpeza, o Green Dot, que emprega 115 pessoas na usina de Medupi, um dos maiores projetos de energia do país. Ela diz que as habilidades que aprendeu com a iniciativa de liderança ajudaram-na a expandir seus negócios.

Essas são as histórias de apenas algumas pessoas que foram beneficiárias de investimentos realizados pelo BAD em todo o continente. Entre eles, o apoio à construção de uma linha de transmissão de energia de 563 quilômetros em Moçambique, como parte de um compromisso de ajudar na recuperação após a passagem do ciclone Idai por meio da restauração de meios de subsistência e infraestrutura; um acordo com a Somália de doação de US$ 28,8 milhões para projetos de estradas e água; a assinatura com a União Africana de uma doação de US$ 4,8 milhões para um secretariado continental de livre comércio; e o compromisso de reunir seus recursos com outras partes interessadas para combater a insegurança alimentar no continente.

O BAD registrou uma pegada enorme em termos de desenvolvimento. No ano passado, seu programa Global Benchmark lançou com sucesso duas grandes emissões de benchmark global no mercado de dólares de US$ 2 bilhões cada e um título de dez anos de 1,25 bilhão de euros. “A África não vai se desenvolver com a ajuda, mas por meio da disciplina dos investimentos”, pontuou o presidente do BAD, Akinwumi Adesina, observando que o banco e os parceiros lançaram o Fórum de Investimento na África em 2018, que levantou US$ 38,7 bilhões em acordos de investimento.

Com o encerramento da 20ª reunião anual das principais instituições financeiras do mundo, na semana passada, na sede do BAD em Abidjan, Costa do Marfim, estão em andamento planos para um novo impulso ao desenvolvimento da África, uma vez que o banco pediu um aumento geral de capital dos acionistas. O BAD está comprometido em ajudar a África a explorar seu potencial de ser um destino competitivo de investimentos globais, de acordo com seu vice-presidente sênior, Charles Boamah, que citou conversas sobre o aumento geral de capital, afirmando que “esse é um ano crucial, um ano em que decisões muito, muito importantes estão sendo tomadas sobre que tipo de banco queremos ter nos próximos 20 anos”.

No início deste ano, o Canadá comprometeu US$ 1,1 bilhão em capital exigível temporário para apoiar o BAD e também instou outros países membros com classificação AAA a se unirem ao Canadá no apoio ao banco. Na ocasião, Adesina recebeu com satisfação o anúncio, dizendo que era um “grande impulso”. Ele indicou que permitiria ao banco “fortalecer sua classificação AAA e aumentar os empréstimos para os países membros enquanto as discussões estão em andamento entre todos os acionistas para um aumento geral de capital”. O Canadá é membro do BAD desde 1983 e é o quarto maior acionista entre seus países membros não regionais.

Adesina estava no Japão no final de agosto para participar da Conferência Internacional de Tóquio sobre Desenvolvimento Africano (Ticad), ocasião em que destacou às empresas japonesas que “a África apresenta um retorno atraente para os investidores”. O BAD está otimista sobre o crescimento econômico da África, que apoia por meio de vários serviços de financiamento disponibilizados a seus 54 países membros regionais.

Em 2018, a África registrou um crescimento real do PIB de 3,5%, informou o BAD em seu relatório anual. Esse é um momento positivo para aproveitar novos investimentos no continente. O banco declarou que 17 países africanos alcançaram um crescimento real do PIB superior a 5% em 2018 e 21 países apresentaram um crescimento entre 3% e 5%. Apenas cinco países africanos registraram recessão em 2018, abaixo dos oito registrados nos dois anos anteriores. Seis das dez economias que mais crescem no mundo são nações africanas: Burkina Faso, Costa do Marfim, Etiópia, Líbia, Ruanda e Senegal.

Segundo o BAD, alguns países não ricos em recursos tiveram altas taxas de crescimento em 2018, incluindo Costa do Marfim (7,4%), Ruanda (7,2%) e Senegal (7%), apoiados pela produção agrícola, a demanda do consumidor e o investimento público. Os fundamentos econômicos na maioria dos países africanos continuaram melhorando, afirmou o banco, atribuindo isso à consolidação fiscal e investimentos maciços em infraestrutura, grandes incursões em inovação financeira, aumento da demanda doméstica e melhorias substanciais no clima de investimentos.

Desenvolvimento da África

Convencido do forte potencial de crescimento econômico da África, o BAD investe em vários setores. Em 2018, aprovou empréstimos no valor de US$ 9,95 bilhões em seus programas High 5s – cinco programas que se concentram em setores essenciais:

    • Light Up and Power Africa – aprovações totais de US$ 1,9 bilhão, 23% a mais do que em 2017, com 447 megawatts em nova capacidade total de energia sendo instalada, sendo 197 megawatts de renováveis. Cerca de 90% dos empréstimos bancários foram focados no investimento em infraestrutura.

    • Feed Africa – foram beneficiadas 19 milhões de pessoas com tecnologias agrícolas aprimoradas e 1.700 toneladas de insumos agrícolas (fertilizantes, sementes, e outros). Quase US$ 1,54 bilhão foram aprovados em 2018 para transformar a agricultura no continente.

    • Industrialise Africa – foram favorecidos 154 mil operadores-proprietários e micro, pequenas e médias empresas com acesso a serviços financeiros. Empréstimos adicionais apoiaram atividades em uma ampla gama de manufaturas e serviços no setor privado.

    • Integrate Africa – cerca de 14 milhões de pessoas obtiveram acesso a melhores serviços de transporte, com investimentos de mais de US$ 1 bilhão, e mais de US$ 20 milhões nos últimos cinco anos em suporte a contratos comerciais e em transporte transfronteiriço e infraestrutura de energia leve.

    • Improve the Quality of Life for the People of Africa – benefícios para 8 milhões de pessoas com melhor acesso a água e saneamento.

“De qualquer forma, esses números e impactos são impressionantes. Mas as necessidades na África são enormes. É por isso que o banco está envolvido em discussões com seus acionistas para que um aumento geral de capital faça muito mais pela África, em direção à Agenda 2063”, destacou Adesina.

Riscos permanecem

Apesar de o PIB da África ter aumentado cerca de 3,5% em 2018, o crescimento econômico do continente está ameaçado por riscos domésticos, como mudanças climáticas, preocupações de segurança e migração, aumento da vulnerabilidade ao endividamento em alguns países e incertezas associadas a eleições e transições políticas, apontou o BAD, recomendando investimentos significativos do setor privado e financiamento externo em infraestrutura e financiamento regionais.

Em média, o déficit fiscal da África caiu de 5,8% em 2017, para cerca de 4,5% em 2018, enquanto a inflação caiu de 12,6% em 2017, para 10,9% em 2018. No entanto, o BAD lamentou que essas taxas de crescimento permanecessem insuficientes para enfrentar os desafios persistentes de alto desemprego, baixa produtividade agrícola, infraestrutura inadequada e déficits fiscais, além de vulnerabilidades da dívida.

Embora as receitas tributárias e a eficiência nos gastos tenham melhorado, a mobilização de recursos domésticos geralmente permanece muito aquém do potencial, pontuou o BAD, observando que 16 países africanos foram classificados como em dificuldades de dívida ou com alto risco de dificuldades de dívida no final de 2018. O banco insistiu no fortalecimento dos vínculos entre dívida e investimento para garantir um alto retorno social dos investimentos públicos financiados por dívida.

“Estou otimista sobre o futuro da África e confiante em nossa capacidade de causar um impacto maior na vida de milhões de pessoas neste amado continente ao qual fomos chamados a servir”, ressaltou Adesina. E acrescentou: “Precisamos de acesso universal à eletricidade. Devemos ajudar a tornar a África autossuficiente em alimentos. Devemos integrar completamente o continente. Devemos industrializar o continente. E devemos melhorar a qualidade de vida do povo da África”.

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Projeto solar planeja tornar a África uma casa de energia renovável

sex, 13/09/2019 - 12:03

NAÇÕES UNIDAS, 13 de setembro de 2019 (IPS) – Quando o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Antonio Guterres, lançou a Aliança Solar Internacional, em outubro de 2018, ele aplaudiu a meta de mobilizar cerca de US$ 1 trilhão para a implantação de cerca de mil gigawatts (GW) de energia solar até 2030. “Está claro que estamos testemunhando uma revolução global de energia renovável”, disse.

Essa revolução também está ocorrendo sob a liderança do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), que implantou a iniciativa Deserto ao Poder (DtP), um projeto solar altamente ambicioso para tornar a África uma casa de energia renovável. Espera-se que esse projeto se estenda pela região do Sahel, aproveitando o abundante recurso solar da região.

O projeto tem a meta de desenvolver e fornecer dez GW de energia solar até 2025 e atender 250 milhões de pessoas com eletricidade verde, inclusive em alguns dos países mais pobres do mundo. Pelo menos 90 milhões de pessoas estarão conectadas à eletricidade pela primeira vez, e sairão da pobreza energética.

Atualmente, 64% da população do Sahel – que abrange Senegal, Nigéria, Mauritânia, Mali, Burkina Faso, Níger, Chade, Sudão, Etiópia, Djibuti e Eritreia – vive sem eletricidade, uma grande barreira ao desenvolvimento, com consequências para a educação, a saúde e os negócios. O BAD apontou, com razão, que a falta de energia continua sendo um impedimento significativo para o desenvolvimento econômico e social da África.

Iniciado em 2017 pelo BAD, o DtP foi descrito como “uma ambição grande e ousada: iluminar e energizar o Sahel, construindo uma capacidade de geração de eletricidade de dez gigawatts por meio de sistemas solares fotovoltaicos em projetos públicos, privados, redes e fora da rede pública até 2025, e consequentemente transformar a indústria, a agricultura e o tecido econômico de toda a região”.

Akinwumi A. Adesina

O doutor Akinwumi Adesina, presidente do Banco Africano de Desenvolvimento, falando em Ouagadougou, capital de Burkina Faso, onde participou da Cúpula do G5 do Sahel, salientou a importância da vontade política no sucesso da iniciativa Deserto ao Poder, cujo objetivo é garantir acesso universal a eletricidade para mais de 60 milhões de pessoas por meio da energia solar.

O presidente de Burkina Faso, Mark Roch Christian Kaboré, aplaudiu a iniciativa Deserto ao Poder do BAD e também destacou o excelente relacionamento de seu país com o banco, expressando seu agradecimento pelo portfólio de projetos implementados. Adesina foi convidado na Cúpula do G5 do Sahel, realizada em 13 de setembro.

Adesina chamou a atenção para o paradoxo de que uma das regiões mais ensolaradas do mundo não tem acesso a eletricidade. “Agora, mais do que nunca, a cooperação e o comércio transfronteiriço de energia são essenciais para manter um suprimento seguro a longo prazo, diante dos desafios das mudanças climáticas”, disse, acrescentando que “em Burkina Faso foram tomadas medidas significativas com o projeto de eletrificação rural de Yeleen, apoiado pelo BAD”.

Como parte de sua estratégia de eletrificação para a África, o BAD está comprometido em acelerar o acesso a energia de alta qualidade e baixo custo para o povo do continente. As conexões críticas de rede foram aprovadas pelo Conselho do banco: Mali-Guiné, Nigéria-Níger-Benin-Burkina Faso e Chade-Camarões. O Projeto de Eletrificação Rural de Yeleen, envolvendo a produção de energia fora da rede em Burkina Faso, é o primeiro empreendimento da iniciativa DtP.

Burkina Faso, um país de baixa renda do Sahel, foi negativamente impactado por variações climáticas extremas, como declínio das chuvas, aumento da temperatura, inundações e secas. Com capacidade instalada de 285 megawatts, cerca de três milhões de famílias em Burkina Faso estão completamente sem energia.

Dos 19 milhões de habitantes de Burkina Faso, 90% vivem em áreas rurais, onde o acesso a eletricidade – principalmente com geradores a diesel – é de apenas 3%. A agricultura, a base da economia rural de Burkina Faso, também é a mais vulnerável aos impactos das mudanças climáticas.

O projeto é financiado pelo Fundo Africano de Desenvolvimento do BAD, além de contar com um cofinanciamento mobilizado pelo BAD a partir do Fundo Verde para o Clima (GCF) e da União Europeia. O projeto também alavancará os investimentos do setor privado por meio de ações e dívidas levantadas de bancos comerciais. Aproveitará a energia solar para fornecer eletricidade para mais de 900 mil pessoas nas áreas rurais – quase 5% da população do país – e deverá resultar em uma redução média anual de 15.500 toneladas nas emissões de CO2.

Durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP24) de dezembro de 2018, em Katowice, Polônia, Guterres pontuou que a energia renovável representou cerca de 70% das adições líquidas à capacidade global de energia em 2017, e que a energia solar está no centro dessa revolução. “Precisamos mudar rapidamente nossa dependência de combustíveis fósseis. Precisamos substituí-los por energia limpa gerada com água, vento e sol. Precisamos parar o desmatamento, restaurar florestas degradadas e mudar a maneira como cultivamos”, enfatizou. A alternativa à mudança para a energia verde, “é um futuro sombrio e perigoso”, ressaltou.

Segundo o BAD, estima-se que a pobreza energética na África custe ao continente entre 2% e 4% do PIB anualmente. Os detalhes da iniciativa Deserto ao Poder foram descritos como parte das negociações sobre mudanças climáticas do Acordo de Paris na COP24. “A energia é a base da vida humana, todo o nosso sistema depende disso. Para a África, no momento, fornecer e garantir energia sustentável está na espinha dorsal de seu crescimento econômico”, opinou Magdalena J. Seol, consultora do BAD, sobre a iniciativa Deserto ao Poder.

“A falta de energia permanece como um impedimento significativo ao desenvolvimento econômico e social da África. O projeto trará muitos benefícios para a população local. Vai melhorar o acesso a eletricidade para famílias de baixa renda e permitirá que as pessoas façam a transição para longe de fontes de energia perigosas, como o querosene, que traz riscos à saúde”, acrescentou Seol.

O projeto também criará empregos e ajudará a atrair o envolvimento do setor privado em energia renovável na região. Colocando o problema em sua perspectiva correta, pontuou Guterres, na COP24, na última década os preços das energias renováveis despencaram e os investimentos estão aumentando. “Hoje, um quinto da eletricidade do mundo é produzido por energia renovável. Nós devemos construir sobre isso”. Ele enfatizou que o mundo está vendo uma onda de ação climática.

“Está claro que energia limpa faz sentido para o clima. Mas também faz sentido econômico. Hoje é a energia mais barata. E trará benefícios significativos à saúde. A poluição do ar afeta quase todos nós, independentemente das fronteiras”, apontou Guterres, e incentivou empresas, governos e organizações da sociedade civil a divulgar o risco climático, a desinvestir em combustíveis fósseis e a estabelecer parcerias em projetos de infraestrutura resiliente de baixa emissão.

“Precisamos fazer isso, das maiores às menores cidades. As oportunidades são tremendas”, indicou Guterres, destacando que cerca de 75% da infraestrutura necessária até 2050 ainda precisa ser construída. “Como isso for feito, nos trancará em um futuro de alta emissão ou nos levará a um desenvolvimento verdadeiramente sustentável de baixas emissões. Existe apenas uma escolha racional”, ressaltou.

De acordo com o BAD, muitas empresas lideradas por mulheres atualmente enfrentam barreiras maiores do que as empresas lideradas por homens para acessar a eletricidade da rede – portanto, o projeto tem o potencial de aumentar a participação feminina em atividades econômicas e processos de tomada de decisão.

O projeto foi lançado em colaboração com o Green Climate Fund, criado pelos 194 países que fazem parte da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), que apoia os países em desenvolvimento a se adaptarem e mitigarem as mudanças climáticas. O programa foi projetado para combinar capital do setor privado com financiamento misto.

“Se você olhar para os países que essa iniciativa apoia, eles são os mais afetados pelas mudanças climáticas e pelas emissões de carbono de outras partes do mundo”, indicou Seol. “Diante disso, os investimentos terão um efeito maior nessas regiões, com maior demanda e oportunidade de mercado no setor de energia. “As mulheres geralmente são desproporcionalmente afetadas negativamente pelos problemas de acesso a energia. Fornecer uma eletricidade segura e sustentável também cria um impacto positivo na questão de gênero”, acrescentou.

O continente africano detém 15% da população mundial, mas deve arcar com quase 50% dos custos estimados de adaptação às mudanças climáticas globais, de acordo com o BAD. Esses custos devem reduzir investimentos em saúde, abastecimento de água, agricultura e silvicultura, apesar de sua contribuição mínima para as emissões globais.

No entanto, a Agência Internacional de Energia Renovável (Irena) avalia que o potencial de energia renovável da África possa colocar o continente na vanguarda mundial da produção de energia verde. Estima-se que tenha um potencial quase ilimitado de capacidade solar (10 TW), energia hídrica abundante (350 GW), eólica (110 GW) e fontes de geotérmica (15 GW) – e uma potencial capacidade global de energia renovável de 310 GW em 2030.

Outros projetos de energias renováveis na África incluem o complexo solar Ouarzazate, em Marrocos, que é uma das maiores usinas solares concentradas do mundo. Produziu mais de 814 GW por hora de energia limpa desde 2016 e, no ano passado, a usina solar impediu a emissão de 217 mil toneladas de dióxido de carbono. Até recentemente, o Marrocos supria 95% de suas necessidades de energia com fontes externas.

Na África do Sul, o BAD e seu parceiro, o Climate Investment Fund, ajudaram a financiar o Parque Eólico Sere – 46 turbinas que fornecem cem megawatts à rede elétrica nacional, atendendo 124 mil casas – e esperam economizar seis milhões de toneladas de gases de efeito estufa ao longo de sua vida útil, prevista para um período de 20 anos.

A COP24 é a 24ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). Este ano, os países estão se preparando para implementar o Acordo de Paris, que tem o objetivo de limitar o aquecimento global do mundo a não mais que 2º Celsius.

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